Anéis de plasma revelam como estrelas podem destruir ou proteger planetas habitáveis

Anéis de plasma revelam o clima espacial oculto de estrelas jovens (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Anéis de plasma revelam o clima espacial oculto de estrelas jovens (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

A busca por planetas habitáveis costuma focar em distância orbital, presença de água e composição atmosférica. No entanto, uma nova linha de pesquisa indica que um fator menos visível pode ser decisivo: o clima espacial gerado pela própria estrela. Estudos recentes publicados no The Astrophysical Journal Letters mostram que estrelas anãs M jovens podem ser envoltas por estruturas gigantes de plasma ionizado, capazes de influenciar profundamente os ambientes planetários ao redor.

As anãs M, também chamadas de anãs vermelhas, dominam a população estelar da galáxia e frequentemente abrigam planetas rochosos. Apesar disso, muitas delas apresentam intensa atividade magnética, com ejeções de partículas energéticas que podem comprometer atmosferas planetárias. Entender como esse material se comporta tornou-se essencial para avaliar a habitabilidade fora do Sistema Solar.

Logo após as primeiras observações, astrônomos identificaram padrões incomuns de variação de brilho em algumas dessas estrelas. Em vez de simples manchas estelares, os dados revelaram algo mais complexo. Para facilitar a compreensão, os principais achados incluem:

  • Grandes aglomerados de plasma frio presos ao campo magnético da estrela;
  • Formação de um toro de plasma, semelhante a uma rosca, orbitando a anã M;
  • Concentração desigual do material, criando regiões mais densas e dinâmicas;
  • Interação direta entre rotação estelar e magnetosfera.

Toros de plasma funcionam como “estações meteorológicas espaciais”

Essas estruturas atuam como sensores naturais do ambiente estelar. Ao observar suas variações, os cientistas conseguem inferir densidade, movimento e intensidade das partículas ao redor da estrela. Trata-se de uma forma inédita de estudar o clima espacial em sistemas distantes, algo impossível com instrumentos convencionais.

Clima estelar extremo pode decidir o destino de planetas rochosos (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Clima estelar extremo pode decidir o destino de planetas rochosos (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Esse avanço é particularmente relevante porque partículas energéticas, mais do que a luz, podem erosionar atmosferas, alterar a química superficial e impedir a retenção de água líquida. Assim, mesmo planetas localizados na chamada “zona habitável” podem se tornar estéreis se expostos continuamente a esse bombardeio.

Implicações diretas para a busca por vida fora da Terra

As estimativas indicam que ao menos 10% das anãs M jovens apresentam esse tipo de estrutura plasmática. Isso significa que uma parcela significativa dos exoplanetas conhecidos pode estar sujeita a condições extremas logo no início de sua história.

O próximo passo da pesquisa é determinar a origem desse plasma, avaliando se ele vem da própria estrela ou de fontes externas, como interações com discos ou corpos próximos. Essa resposta ajudará a refinar modelos de evolução planetária e, sobretudo, a redefinir critérios de habitabilidade.

Com isso, fica claro que compreender o clima espacial estelar é tão importante quanto estudar atmosferas ou oceanos. O destino de mundos potencialmente habitáveis pode estar sendo decidido muito antes de qualquer forma de vida surgir.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.