Amostras de Darwin históricas são analisadas com laser sem abrir recipientes antigos

Amostras de Darwin são analisadas sem abrir frascos de 200 anos (Imagem: Pixabay/ The Trustees of The Natural History Museum, London)
Amostras de Darwin são analisadas sem abrir frascos de 200 anos (Imagem: Pixabay/ The Trustees of The Natural History Museum, London)

Quase 200 anos após a viagem de Charles Darwin ao redor do mundo, os espécimes coletados durante a expedição do HMS Beagle continuam revelando novas informações para a ciência. Agora, pesquisadores conseguiram examinar parte desse material histórico utilizando uma tecnologia que permite investigar o conteúdo dos frascos sem precisar abri-los, algo essencial para preservar peças extremamente delicadas.

O estudo analisou 46 amostras históricas mantidas no Museu de História Natural de Londres. Por meio de uma técnica moderna de análise química por laser, os cientistas conseguiram identificar os líquidos preservantes usados para armazenar os organismos, evitando riscos de contaminação ou danos aos espécimes raros.

A pesquisa, publicada na revista científica ACS Omega, demonstra como tecnologias avançadas podem transformar o estudo de coleções científicas históricas. Ao examinar o conteúdo dos frascos, os pesquisadores encontraram padrões importantes nas práticas de preservação do século XIX. Entre os principais resultados observados no estudo estão:

  • Mamíferos e répteis geralmente foram tratados com formalina antes de serem armazenados em etanol;
  • Invertebrados, como águas-vivas e camarões, apresentaram maior diversidade de soluções preservantes;
  • Em cerca de 80% dos frascos, foi possível identificar com precisão o fluido utilizado;
  • Aproximadamente 15% das amostras tiveram identificação parcial, ainda assim revelando pistas valiosas sobre métodos históricos de conservação.

Tecnologia que “enxerga” através do vidro

O avanço foi possível graças a uma técnica chamada Espectroscopia Raman com Deslocamento Espacial (SORS). Esse método utiliza feixes de laser capazes de atravessar o vidro do recipiente e detectar a assinatura química das substâncias presentes no interior.

Quando a luz do laser interage com o líquido preservante, pequenas alterações no comprimento de onda revelam sua composição molecular. Assim, os pesquisadores conseguem identificar substâncias como etanol, formalina ou misturas químicas complexas sem abrir o frasco.

Além disso, o método também permite determinar o material do recipiente, como vidro ou plástico, oferecendo informações adicionais sobre a história e a conservação da coleção.

Um recurso para proteger coleções científicas

Museus ao redor do mundo armazenam mais de 100 milhões de espécimes preservados em líquidos, incluindo animais, plantas e outros organismos coletados ao longo de séculos de exploração científica. No entanto, manter esse patrimônio em boas condições representa um grande desafio.

Com o passar do tempo, os líquidos preservantes podem evaporar, sofrer degradação química ou alterar suas propriedades, comprometendo a integridade das amostras. Tradicionalmente, identificar essas mudanças exigia abrir os recipientes, o que pode expor os espécimes à contaminação e a danos.

Por isso, técnicas não invasivas como a SORS vêm ganhando importância. Além de revelar detalhes sobre as práticas científicas da época de Darwin, o método permite monitorar continuamente o estado das coleções biológicas.

Ao combinar tecnologia moderna e patrimônio científico histórico, essa abordagem mostra que materiais coletados há quase dois séculos ainda podem gerar novos conhecimentos, sem comprometer sua preservação para futuras gerações de pesquisadores.

Escrito por Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ) para o Fala Ciência.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes