A doença de Alzheimer é marcada pela perda progressiva da memória, mas os mecanismos iniciais que desencadeiam esse processo ainda não eram totalmente compreendidos. Evidências recentes indicam que o cérebro pode ser induzido a eliminar ativamente suas próprias conexões, como se recebesse um sinal interno para apagar memórias fundamentais.
Um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences trouxe novas pistas sobre esse fenômeno. A pesquisa revelou que dois fatores centrais associados ao Alzheimer, o acúmulo de beta-amiloide e a inflamação cerebral, convergem para o mesmo receptor molecular, acionando a perda de sinapses, estruturas essenciais para a comunicação entre neurônios.
Quando diferentes processos levam ao mesmo caminho
Historicamente, o Alzheimer foi explicado por múltiplas hipóteses, incluindo placas amiloides, inflamação crônica, alterações imunológicas e disfunções celulares. O novo estudo mostra que esses processos aparentemente distintos podem, na prática, ativar uma via comum de destruição sináptica.
Os pesquisadores identificaram que tanto a proteína beta-amiloide quanto moléculas inflamatórias atuam sobre um receptor específico chamado LilrB2. Esse receptor é conhecido por regular a poda sináptica, um processo normal durante o desenvolvimento cerebral, mas que se torna prejudicial quando ativado de forma excessiva na vida adulta.
Inflamação cerebral e poda sináptica excessiva
Além do papel da beta-amiloide, o estudo explorou a influência do sistema imunológico do cérebro. Em condições inflamatórias, entra em ação a chamada cascata do complemento, um mecanismo normalmente envolvido na defesa contra patógenos.
Os cientistas identificaram que um fragmento dessa cascata, a proteína C4d, apresenta alta afinidade pelo receptor LilrB2. Testes experimentais demonstraram que a exposição do cérebro a esse fragmento foi suficiente para provocar eliminação significativa de sinapses, mesmo na ausência de outras alterações neurodegenerativas.
Esse achado reforça a ideia de que a inflamação não atua apenas como um fator secundário, mas pode participar diretamente da perda de memória no Alzheimer.
Neurônios como agentes ativos do processo
Um aspecto particularmente relevante do estudo é a constatação de que os neurônios não são vítimas passivas da doença. Ao receberem sinais através do receptor LilrB2, eles próprios iniciam o processo de remoção das sinapses.
Essa visão altera o entendimento tradicional, que atribuía a maior parte da destruição sináptica às células imunológicas do cérebro. O novo modelo sugere que os neurônios desempenham um papel central e ativo na progressão do declínio cognitivo.
Implicações para novas estratégias terapêuticas
Atualmente, os tratamentos aprovados para Alzheimer focam principalmente na redução das placas de beta-amiloide. No entanto, os resultados clínicos têm sido limitados e acompanhados de efeitos adversos relevantes.
Os dados apresentados indicam que proteger diretamente as sinapses, bloqueando receptores como o LilrB2, pode representar uma abordagem mais eficaz para preservar a memória. Essa estratégia amplia o foco terapêutico além da remoção de placas, direcionando-se aos mecanismos que realmente levam à desconexão neural.
O estudo intitulado C4d, um ligante de alta afinidade para LilrB2, está elevado na doença de Alzheimer e medeia a poda sináptica, liderado por Barbara K. Brott, foi publicado em 2025 na Proceedings of the National Academy of Sciences (DOI: 10.1073/pnas.2519253122).

