Durante os períodos de repouso, o cérebro não está inativo. Pelo contrário, ele entra em uma fase crucial de consolidação da memória, na qual experiências recentes são reproduzidas internamente para se tornarem lembranças estáveis. No entanto, novas evidências indicam que, na doença de Alzheimer, esse mecanismo não desaparece, mas passa a funcionar de forma desorganizada.
Um estudo publicado em Current Biology, intitulado “A interrupção da repetição hipocampal está associada à redução da estabilização do mapa offline em um modelo de camundongo com Alzheimer”, liderado por Sarah Shipley e publicado em 2026 (DOI: 10.1016/j.cub.2025.12.061), investigou esse fenômeno em um modelo experimental da doença.
Hipocampo ativo, mas fora de sintonia
A pesquisa se concentrou no hipocampo, região central para aprendizado e memória espacial. Normalmente, durante o descanso, neurônios específicos chamados células de lugar são ativados em sequências bem organizadas, reproduzindo trajetos vivenciados recentemente. Esse padrão reforça conexões neurais e estabiliza as memórias.
No modelo de Alzheimer analisado, a frequência desses eventos de reprodução permaneceu praticamente intacta. Contudo, a coordenação entre os neurônios estava comprometida. As sequências deixaram de seguir uma ordem coerente, transformando um processo de fortalecimento da memória em um sinal confuso.
Um dos achados mais relevantes foi a perda de estabilidade neuronal. As células de lugar, que normalmente representam posições espaciais específicas de forma consistente, passaram a mudar seu padrão de ativação ao longo do tempo. Essa instabilidade foi mais evidente após períodos de repouso, justamente quando a memória deveria se fortalecer.
Na prática, isso significa que o cérebro continua tentando armazenar informações, mas falha em organizá-las. Como resultado, as memórias se tornam frágeis e imprecisas, mesmo antes de ocorrer uma perda neuronal extensa.
Impacto direto no comportamento e na orientação
Essas alterações microscópicas tiveram reflexos claros no comportamento. Os animais apresentaram dificuldade em se orientar, repetiam trajetos já explorados e demonstravam falhas persistentes na memória espacial. O dado reforça a ideia de que o Alzheimer compromete a qualidade da consolidação da memória, não apenas sua existência.
Descoberta muda a forma de entender o Alzheimer
O estudo sugere que os primeiros sintomas da doença podem surgir de um erro funcional, e não apenas da morte de neurônios. Isso abre caminho para estratégias de detecção precoce, baseadas em alterações na dinâmica cerebral durante o repouso, além de novas abordagens terapêuticas voltadas à restauração da organização neuronal.
Além disso, o trabalho reforça a importância de investigar neurotransmissores ligados à modulação desse processo, como a acetilcolina, já envolvida em tratamentos atuais, mas ainda pouco explorada sob essa perspectiva.

