Alimentos gordurosos reprogramam o fígado e aumentam risco de câncer, aponta estudo

Excesso de gordura favorece tumores hepáticos. (Foto: Getty Images via Canva)
Excesso de gordura favorece tumores hepáticos. (Foto: Getty Images via Canva)

O impacto de uma alimentação rica em gordura vai muito além do acúmulo de tecido adiposo. Evidências científicas recentes indicam que esse padrão alimentar pode provocar uma transformação silenciosa nas células do fígado, reduzindo sua capacidade funcional e aumentando progressivamente o risco de câncer hepático

Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts revelou como o excesso de gordura força o fígado a adotar estratégias de sobrevivência que, a longo prazo, criam um ambiente propício à formação de tumores.

O fígado sob pressão constante

Quando submetido repetidamente a dietas ricas em gordura, o fígado enfrenta um estresse metabólico contínuo. Para lidar com esse cenário adverso, as células hepáticas maduras, chamadas hepatócitos, passam por uma reconfiguração profunda do seu funcionamento.

O estudo “A adaptação hepática ao estresse metabólico crônico prepara a tumorigênese”, publicado na revista científica Cell, demonstrou que essas células deixam de priorizar suas funções especializadas, como o metabolismo de nutrientes e a produção de proteínas essenciais, e passam a operar em um modo voltado principalmente à sobrevivência.

Volta a estados celulares mais primitivos

Durante esse processo, os hepatócitos abandonam parcialmente sua identidade madura e assumem características semelhantes às de células-tronco. Essa mudança oferece vantagens temporárias, permitindo maior resistência à inflamação e ao acúmulo de gordura. No entanto, o custo biológico é elevado.

Células menos diferenciadas apresentam maior capacidade de divisão e menor controle sobre seu crescimento. Esse cenário aumenta significativamente a probabilidade de que alterações genéticas prejudiciais resultem em proliferação descontrolada, um passo fundamental para o surgimento do câncer.

Genes que se desligam e genes que assumem o controle

Alimentação gordurosa afeta genes do fígado. (Foto: Getty Images via Canva)
Alimentação gordurosa afeta genes do fígado. (Foto: Getty Images via Canva)

A equipe utilizou sequenciamento de RNA de célula única para mapear, com precisão, como a atividade gênica muda ao longo do tempo. Os resultados revelaram um padrão consistente:

  • Ativação de genes ligados à resistência celular
  • Supressão gradual de genes responsáveis pelo funcionamento normal do fígado
  • Alterações progressivas que acompanham a evolução da doença hepática

Essas mudanças não ocorrem de forma abrupta. Algumas surgem rapidamente, enquanto outras se acumulam ao longo de meses ou anos, tornando o dano difícil de perceber nos estágios iniciais.

Confirmação em tecidos humanos

Para avaliar a relevância clínica dos achados, os pesquisadores analisaram amostras de fígado humano em diferentes fases da doença hepática. Os padrões observados foram semelhantes aos identificados nos modelos experimentais.

Pacientes que apresentavam maior expressão de genes associados à sobrevivência celular e menor atividade de genes ligados à função hepática normal tiveram pior prognóstico após o desenvolvimento de tumores. Esses dados reforçam que a reprogramação celular induzida pela dieta pode influenciar diretamente a evolução da doença em humanos.

Alvos moleculares e novas possibilidades

O estudo também identificou fatores de transcrição e vias moleculares que coordenam essa mudança de identidade celular. Alguns desses alvos já estão sendo explorados em terapias para doenças hepáticas metabólicas, enquanto outros representam potenciais estratégias para prevenir a progressão para o câncer.

Além disso, há interesse crescente em investigar se intervenções nutricionais, perda de peso ou medicamentos voltados ao metabolismo podem reverter parte dessas alterações celulares antes que o dano se torne irreversível.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.