Algas marinhas da Groenlândia transportam carbono para o fundo do oceano em grandes quantidades

Groenlândia revela o papel das macroalgas no sequestro de carbono (Imagem: Science of The Total Environment (2026)/ CC BY)
Groenlândia revela o papel das macroalgas no sequestro de carbono (Imagem: Science of The Total Environment (2026)/ CC BY)

Pesquisadores internacionais descobriram que macroalgas costeiras, especialmente na Groenlândia, desempenham um papel subestimado no sequestro de carbono global. Por meio de processos oceanográficos complexos, essas algas flutuantes podem percorrer centenas de quilômetros e afundar nas águas profundas, onde o carbono que carregam é armazenado por décadas ou até séculos.

O estudo, publicado na Science of The Total Environment por Daniel F. Carlson e colaboradores, combina observações de satélite, modelagem numérica e dados de rastreadores oceânicos, confirmando que florestas de algas marinhas costeiras estão conectadas a sumidouros de carbono distantes, muito além da linha costeira. Principais descobertas do estudo:

  • Macroalgas podem flutuar por 12 a 64 dias antes de se degradarem;
  • Correntes superficiais transportam algas das costas da Groenlândia para o mar aberto;
  • Convecção oceânica profunda durante o inverno faz com que algas afundem, levando carbono às profundezas;
  • Imagens do satélite Sentinel-2 detectaram quase 8.000 manchas de macroalgas em alto-mar.

Macroalgas transportam carbono do litoral às profundezas do oceano

As macroalgas atuam como verdadeiras “correias transportadoras” naturais do carbono. A estrutura flutuante das algas permite que permaneçam na superfície enquanto viajam grandes distâncias. No entanto, ao alcançar águas mais profundas, a pressão e a turbulência fazem com que colapsem, causando o afundamento.

Macroalgas flutuantes transformam o sudoeste da Groenlândia em sumidouro (Imagem: Science of The Total Environment (2026)/ CC BY)
Macroalgas flutuantes transformam o sudoeste da Groenlândia em sumidouro (Imagem: Science of The Total Environment (2026)/ CC BY)

Este processo conecta habitats costeiros altamente produtivos aos reservatórios de carbono do oceano profundo, criando rotas naturais que impedem que o CO₂ seja liberado na atmosfera. A preservação desses ecossistemas, portanto, vai além da proteção da biodiversidade costeira: contribui diretamente para a regulação do clima global.

Groenlândia revela o papel das macroalgas no sequestro de carbono

O sudoeste da Groenlândia foi escolhido como estudo de caso devido à grande abundância de macroalgas flutuantes, como Saccharina latiissima e Fucus. Evidências obtidas por meio de DNA ambiental (eDNA) revelaram a presença dessas algas em sedimentos a até 1.460 metros de profundidade e a 350 km da costa, destacando a importância da região para o sequestro de carbono no Ártico

Para pesquisas futuras, recomenda-se medir a longevidade e a velocidade de flutuação das principais espécies de macroalgas, determinar a profundidade em que ocorre o colapso das estruturas flutuantes e avaliar a exportação vertical e horizontal dessas algas no oceano.

Essas descobertas revelam como macroalgas marinhas são essenciais para o ciclo global do carbono. Proteger e restaurar florestas costeiras de algas pode gerar benefícios climáticos significativos, ampliando o alcance das políticas de conservação para além das águas rasas.

A pesquisa reforça que os sumidouros naturais de carbono não estão apenas nas florestas terrestres ou nos solos, mas também nas profundezas do oceano, sendo vitais para mitigar os efeitos das emissões humanas de CO₂.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes