Água salgada das profundezas do oceano pode conter CO₂ e frear mudanças climáticas

Águas profundas retêm CO₂ e ajudam a regular o clima global (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Águas profundas retêm CO₂ e ajudam a regular o clima global (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

O aquecimento global não é causado apenas por atividades humanas na superfície; ele também está conectado a processos que acontecem nas profundezas do oceano. Um estudo da Universidade Rutgers, publicado na Nature Geoscience, investigou a formação de uma antiga “bolha salgada” e seu papel na retenção de dióxido de carbono (CO₂) durante o final da última era glacial, há cerca de 18.000 anos.

A pesquisa revela que a salinidade das águas profundas atua como uma barreira natural, mantendo grandes volumes de CO₂ longe da atmosfera e influenciando ciclos climáticos por milhares de anos.

A salinidade impacta o armazenamento de carbono

Para entender melhor o fenômeno, os pesquisadores analisaram microfósseis de foraminíferos em sedimentos marinhos do Oceano Índico, obtendo informações precisas sobre a salinidade histórica das águas profundas. A partir disso, constataram que durante períodos de rápida deglaciação:

  • As águas profundas acumulavam maior concentração de CO₂, funcionando como reservatórios naturais;
  • Mudanças na circulação oceânica, a chamada esteira transportadora global, determinavam quanto carbono era retido ou liberado para a atmosfera;
  • A redistribuição de sal no Oceano Antártico ajudava a estabilizar as massas de água, aumentando a eficiência de retenção do CO₂.

Consequências para o clima atual

Salinidade oceânica é chave no armazenamento de carbono antigo (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Salinidade oceânica é chave no armazenamento de carbono antigo (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Essas descobertas reforçam que o Oceano Antártico desempenha papel crítico no equilíbrio climático global. Ele é um dos poucos locais onde águas profundas, ricas em carbono, emergem e liberam gás de volta para a atmosfera, influenciando temperaturas globais.

Embora os oceanos absorvam cerca de um terço das emissões humanas de carbono, a eficiência desse armazenamento depende da concentração de sal nas profundezas. Sem uma “bolha salgada” suficientemente forte, o CO₂ seria liberado mais rapidamente, acelerando o aquecimento global.

O monitoramento contínuo das massas de água profundas é fundamental para ajudar a prever mudanças climáticas, pois fornece dados sobre como o CO₂ é armazenado no oceano. Além disso, a salinidade das águas profundas deve ser incorporada nos modelos climáticos globais para estimar de forma mais precisa a capacidade de retenção de carbono. Por fim, a proteção do Oceano Antártico e das regiões profundas torna-se essencial para mitigar os efeitos do aquecimento global e preservar os mecanismos naturais de regulação do clima.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.