Agonorexia: novo efeito das canetas emagrecedoras começa a preocupar especialistas

Agonorexia pode surgir com uso indevido das canetas. (Foto: Divulgação)
Agonorexia pode surgir com uso indevido das canetas. (Foto: Divulgação)

Nos últimos anos, medicamentos injetáveis voltados ao controle do peso corporal, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, ganharam grande visibilidade. Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, esses fármacos também demonstraram elevada eficácia no controle da obesidade, pois atuam na redução do apetite e no aumento da sensação de saciedade.

Com a crescente popularidade dessas medicações, no entanto, profissionais de saúde começaram a observar um fenômeno que merece atenção. Trata-se da chamada agonorexia, um termo relativamente recente utilizado para descrever uma supressão intensa do apetite provocada por medicamentos

Embora ainda não seja reconhecida oficialmente como diagnóstico médico, a condição levanta preocupações importantes sobre o uso inadequado das chamadas canetas emagrecedoras.

Como atuam as canetas emagrecedoras no organismo

As chamadas canetas emagrecedoras são dispositivos que aplicam medicamentos injetáveis capazes de imitar hormônios produzidos naturalmente pelo intestino. Entre os exemplos mais conhecidos estão semaglutida e tirzepatida, substâncias usadas no tratamento da obesidade e do diabetes.

Esses medicamentos pertencem ao grupo dos agonistas do receptor de GLP-1 ou compostos semelhantes. Na prática, eles atuam diretamente em áreas do cérebro responsáveis pela regulação da fome, promovendo dois efeitos principais:

redução do apetite
aumento da sensação de saciedade

Quando prescritos de forma adequada, esses fármacos podem contribuir significativamente para o controle do peso corporal e para a melhora de parâmetros metabólicos.

Contudo, o cenário muda quando o efeito sobre a fome se torna excessivo.

Quando a diminuição da fome se torna um problema

A agonorexia descreve justamente esse ponto de desequilíbrio. Em alguns casos, a ação dos medicamentos pode levar a uma inibição exagerada do apetite, fazendo com que a ingestão alimentar se torne insuficiente para as necessidades do organismo.

Esse quadro costuma aparecer principalmente quando há uso sem acompanhamento médico, doses inadequadas ou início do tratamento sem a progressão gradual recomendada.

Alguns sinais que podem indicar um efeito exagerado incluem:

perda de peso muito acelerada
náuseas persistentes
fraqueza intensa
ingestão alimentar extremamente reduzida
isolamento social ou preocupação excessiva com o emagrecimento

Embora o termo ainda não conste no DSM-5, manual utilizado internacionalmente para classificação de transtornos mentais, especialistas já consideram a agonorexia um alerta clínico relevante.

Impactos metabólicos que exigem atenção

Além da redução extrema do apetite, o uso inadequado das canetas emagrecedoras pode desencadear outros efeitos adversos. Um deles está relacionado à perda de peso muito rápida, que pode favorecer a formação de cálculos biliares.

Em situações mais graves, esses cálculos podem migrar e provocar pancreatite, uma inflamação do pâncreas que pode exigir tratamento hospitalar.

Outro ponto importante envolve a perda de massa muscular. Mesmo quando o emagrecimento ocorre predominantemente por redução de gordura corporal, parte do músculo também pode ser perdida.

Sem acompanhamento nutricional adequado e exercícios de resistência, esse processo pode contribuir para o desenvolvimento de sarcopenia, caracterizada pela diminuição progressiva da massa muscular ao longo do tempo.

Esse fator é particularmente preocupante porque a preservação da musculatura é fundamental para garantir mobilidade, autonomia e qualidade de vida no envelhecimento.

Riscos de produtos manipulados ou irregulares

Outro desafio crescente envolve o acesso a medicações manipuladas ou de origem não regulamentada. Em alguns casos, análises laboratoriais identificaram concentrações do princípio ativo superiores às declaradas.

Esse tipo de variação pode intensificar efeitos colaterais e aumentar o risco de complicações clínicas, especialmente quando o paciente utiliza o medicamento sem avaliação médica prévia.

Por isso, especialistas reforçam a importância de optar apenas por medicamentos aprovados por órgãos regulatórios e adquiridos por vias seguras.

Uso responsável é fundamental para segurança

Apesar dos riscos associados ao uso inadequado, as canetas emagrecedoras continuam sendo ferramentas terapêuticas importantes quando utilizadas corretamente. O tratamento seguro depende de uma abordagem que envolve diferentes profissionais de saúde.

Entre as medidas consideradas essenciais estão:

prescrição médica especializada, preferencialmente com endocrinologista
aumento gradual das doses, conforme tolerância do paciente
acompanhamento nutricional contínuo
prática regular de exercícios para preservação muscular
avaliação psicológica quando necessário

Com orientação adequada, esses medicamentos podem contribuir de forma significativa para o tratamento da obesidade e de doenças metabólicas. Entretanto, o surgimento do conceito de agonorexia reforça a necessidade de cautela.

No fim das contas, o objetivo do tratamento deve ser sempre o equilíbrio metabólico e a saúde a longo prazo, e não apenas a redução rápida do peso.

*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-RJ: 13912).

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn