Desmatamento muda clima da Amazônia e aquece o solo em níveis alarmantes

Amazônia mais quente e seca com avanço do desmatamento. (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Amazônia mais quente e seca com avanço do desmatamento. (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

A Amazônia sempre foi reconhecida como um dos principais reguladores naturais do clima do planeta. No entanto, novas evidências científicas indicam que esse papel está sendo progressivamente enfraquecido. O avanço do desmatamento na Amazônia não apenas elimina árvores, mas modifica profundamente a forma como a floresta interage com a atmosfera, resultando em mais calor, menos chuva e maior risco ambiental.

De forma geral, áreas que perderam grande parte da vegetação passaram a apresentar um comportamento climático semelhante ao de regiões de transição entre floresta e savana. Ou seja, deixam de atuar como um sistema úmido e passam a funcionar como superfícies mais secas e quentes, incapazes de manter o equilíbrio térmico típico da floresta preservada. Os pesquisadores identificaram padrões claros:

  • Aumento significativo da temperatura do solo em áreas com baixa cobertura florestal;
  • Redução da evapotranspiração, processo essencial para resfriar o ambiente;
  • Diminuição expressiva do volume de chuvas, especialmente durante a estação seca.

Amazônia perde efeito natural de resfriamento e aquece rapidamente

A floresta amazônica funciona como um imenso ar-condicionado natural. As árvores liberam grandes quantidades de vapor d’água para a atmosfera, resfriando o solo e favorecendo a formação de nuvens. Contudo, quando a cobertura florestal cai abaixo de níveis críticos, esse mecanismo entra em colapso.

Como consequência, o solo passa a absorver mais radiação solar e perde menos calor, o que provoca um aquecimento médio de até 3 °C, chegando a 4 °C em áreas mais degradadas. Além disso, a quantidade de dias com chuva também diminui de forma consistente, alterando o regime hídrico de toda a região.

Menos árvores, mais calor: impactos climáticos na floresta. (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Menos árvores, mais calor: impactos climáticos na floresta. (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Essas mudanças não afetam apenas a biodiversidade, mas comprometem diretamente setores estratégicos, como a agricultura, que depende de chuvas regulares, e os recursos hídricos, que sofrem com a menor recarga de rios e aquíferos. 

O novo cenário também aumenta o risco de incêndios, favorecido por ambientes mais quentes e secos, e impacta a saúde humana, com maior incidência de ondas de calor e problemas relacionados à poluição atmosférica. Além disso, espécies adaptadas ao clima úmido tendem a perder espaço, enquanto organismos mais resistentes ao calor passam a dominar, diminuindo a diversidade biológica da região.

Um sinal de alerta para o futuro

O estudo, publicado na revista Communications Earth & Environment, reforça que o desmatamento não é apenas um problema ambiental, mas um fator direto de instabilidade climática regional e global. A degradação da floresta cria um ciclo de retroalimentação: menos árvores geram menos chuvas, que por sua vez dificultam a regeneração da vegetação.

Portanto, frear o desmatamento e recuperar áreas degradadas não é apenas uma estratégia de conservação, mas uma medida essencial para proteger o clima, a economia e a saúde das populações que dependem da Amazônia.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.