Oceano de Encélado: plumas podem revelar se a lua abriga vida microscópica

Plumas de Encélado revelam pistas sobre vida fora da Terra (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Plumas de Encélado revelam pistas sobre vida fora da Terra (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Entre todas as luas do Sistema Solar, poucas despertam tanto interesse quanto Encélado, um pequeno satélite de Saturno coberto por gelo e marcado por gigantescas plumas de água que escapam de seu interior. Essas colunas de material, observadas pela missão Cassini, funcionam como verdadeiras janelas naturais para um oceano subterrâneo escondido sob a crosta. Agora, um novo estudo sugere que é possível avaliar a habitabilidade desse oceano sem sequer pousar na superfície.

A proposta se baseia no uso da espectroscopia Raman, uma técnica capaz de identificar a composição química de materiais por meio da interação da luz com as moléculas. Aplicada às plumas de Encélado, essa abordagem permite estimar o pH da água, um dos indicadores mais importantes para a existência de ambientes compatíveis com a vida.

Logo de início, os pesquisadores destacam que os valores mais prováveis de pH do oceano da lua estariam entre 8 e 12, ou seja, de levemente a fortemente alcalinos. Em ambientes terrestres, faixas semelhantes estão associadas a regiões hidrotermais ricas em atividade química e biológica.

O que torna esse método tão promissor?

Após simulações em laboratório, os cientistas conseguiram reproduzir condições semelhantes às de Encélado e comprovaram que a técnica consegue diferenciar níveis de pH apenas analisando depósitos de sal congelados. Em termos práticos, isso significa que futuras missões poderiam investigar o oceano apenas observando o material acumulado na superfície. Entre as principais vantagens do método estão:

  • Análise remota, sem perfuração do gelo;
  • Identificação de carbonatos, indicadores diretos do pH;
  • Capacidade de revelar a química da água líquida;
  • Aplicação direta em missões robóticas.
Nova técnica analisa se Encélado é habitável sem pousar (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Nova técnica analisa se Encélado é habitável sem pousar (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Esses carbonatos se formam quando a água interage com dióxido de carbono e rochas, funcionando como uma assinatura geoquímica do ambiente interno.

Por que o pH é tão importante para a vida?

O pH controla reações químicas essenciais à formação de moléculas orgânicas, estabilidade de proteínas e funcionamento de membranas celulares. Ambientes muito ácidos ou extremos demais tendem a ser hostis, enquanto faixas moderadas favorecem a emergência de processos biológicos.

Portanto, se o oceano de Encélado apresentar um pH estável e alcalino, isso reforça a hipótese de que ele pode abrigar microrganismos, especialmente semelhantes aos encontrados em fontes hidrotermais profundas na Terra.

O método que pode transformar Encélado no principal alvo da astrobiologia

A espectroscopia Raman já é usada em missões em Marte e está prevista para sondas futuras da ESA e da JAXA. Sua aplicação em Encélado representa um salto estratégico: em vez de missões complexas de perfuração, bastaria sobrevoar as plumas ou analisar seus depósitos.

Assim, Encélado deixa de ser apenas uma lua gelada e passa a ser visto como um dos locais mais promissores para encontrar vida fora da Terra, com um oceano ativo, energia interna, compostos orgânicos e, agora, um método confiável para investigar sua química vital.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.