Picadas de cobra continuam sendo um grave problema de saúde pública em diversas regiões do mundo, causando milhares de mortes e sequelas permanentes todos os anos. Mas, uma linha de pesquisa pouco intuitiva sugere que uma das substâncias mais perigosas conhecidas pela ciência pode ajudar a conter os efeitos mais destrutivos desses acidentes.
A toxina botulínica (Botox), amplamente conhecida por aplicações médicas, demonstrou potencial para reduzir inflamação e danos musculares provocados por venenos de serpentes.
Um desafio global ainda sem solução completa
O veneno de muitas víboras desencadeia uma resposta inflamatória intensa no organismo, levando rapidamente a inchaço severo, destruição muscular e necrose tecidual. Mesmo com o uso de antivenenos, que neutralizam toxinas circulantes, os danos locais costumam continuar evoluindo, aumentando o risco de amputações e incapacidades permanentes.
Além disso, como os venenos variam entre espécies e regiões, há uma busca crescente por tratamentos complementares capazes de agir diretamente na inflamação local, independentemente do tipo de serpente.
O estudo que testou a toxina botulínica

Essa abordagem foi investigada em um estudo intitulado “A neurotoxina botulínica A alivia a lesão nos membros induzida pelo veneno de Deinagkistrodon acutus através da promoção da polarização de macrófagos em coelhos”, conduzido por X. Lutao e colaboradores.
O trabalho está disponível online na revista científica Toxicon e será publicado oficialmente na edição de fevereiro de 2026 (DOI: 10.1016/j.toxicon.2025.108936).
A pesquisa utilizou o veneno da víbora asiática Deinagkistrodon acutus, conhecida por provocar lesões musculares extensas. Em modelo experimental, os cientistas compararam animais expostos apenas ao veneno, ao veneno combinado com toxina botulínica e a um grupo controle.
Menos inchaço e menor destruição muscular
Os resultados mostraram que a administração da toxina botulínica reduziu significativamente o inchaço e a necrose muscular. Enquanto o veneno isolado causou aumento expressivo do volume dos tecidos e danos estruturais severos, os animais tratados com a toxina apresentaram resposta inflamatória muito mais controlada.
A análise histológica confirmou uma preservação maior das fibras musculares nos grupos que receberam o tratamento combinado.
Como a toxina interfere na resposta inflamatória
Outro achado relevante foi a mudança no perfil das células imunológicas presentes no local da lesão. A toxina botulínica favoreceu a redução de macrófagos pró-inflamatórios, ao mesmo tempo em que aumentou a presença de células associadas à reparação dos tecidos.
Esse efeito sugere que a toxina atua interrompendo a cascata inflamatória, um dos principais fatores responsáveis pelos danos mais graves após picadas de cobra.
O que esse avanço pode representar
Embora os resultados ainda se limitem a estudos experimentais, eles apontam para um futuro em que antivenenos e terapias anti-inflamatórias direcionadas possam atuar de forma complementar. Essa combinação pode reduzir sequelas, acelerar a recuperação e diminuir a gravidade das lesões locais causadas por venenos de serpentes.

