Pequenos mamíferos economizam energia reduzindo o cérebro no inverno

Cérebros que encolhem no inverno e regeneram na primavera. (Imagem: Getty Images via Canva)
Cérebros que encolhem no inverno e regeneram na primavera. (Imagem: Getty Images via Canva)

Em regiões frias, alguns pequenos mamíferos adotam uma estratégia surpreendente: eles reduzem o tamanho do cérebro e de outros órgãos para economizar energia. Este fenômeno, chamado Dehnel, é um exemplo extremo de plasticidade fisiológica, mostrando como a evolução pode criar soluções inéditas para sobreviver a condições adversas.

Pesquisas recentes conduzidas por uma equipe internacional, incluindo a Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e a Universidade do Alabama em Birmingham, investigaram os mecanismos moleculares por trás dessa adaptação. O estudo, publicado na revista Molecular Biology and Evolution em 2026 (William R Thomas et al, DOI: 10.1093/molbev/msag006), detalha como algumas espécies regeneram seus cérebros e crânios na primavera, recuperando funções essenciais após o inverno rigoroso.

Como o fenômeno funciona na prática?

O fenômeno de Dehnel provoca reduções de até 30% no volume cerebral e em órgãos relacionados, permitindo que pequenos mamíferos economizem energia durante o inverno. O crânio se torna menor para reduzir a demanda energética, enquanto órgãos como fígado e rins adaptam-se a um metabolismo mais lento. 

Mesmo com essas mudanças, a função cerebral permanece intacta, sem perda de células, garantindo a recuperação completa na primavera. Essa estratégia não é exclusiva dos musaranhos: toupeiras europeias e alguns mustelídeos, como doninhas, também apresentam essa adaptação evolutiva.

  • Redução de até 30% no volume cerebral e órgãos relacionados;
  • Crânio menor para economizar energia;
  • Fígado e rins adaptados ao metabolismo reduzido;
  • Função cerebral preservada e totalmente regenerável na primavera.

Genes, energia e sobrevivência

Musaranhos reduzem órgãos para economizar energia no frio. (Imagem: Getty Images via Canva)
Musaranhos reduzem órgãos para economizar energia no frio. (Imagem: Getty Images via Canva)

A equipe utilizou genômica comparativa e análise da expressão gênica para identificar genes fundamentais relacionados à homeostase energética, que ajusta o metabolismo ao frio e à escassez de alimentos, e à sinalização de cálcio, responsável por regular funções neuronais durante a redução cerebral. 

Além disso, genes ligados à barreira hematoencefálica garantem a proteção do cérebro mesmo durante alterações volumétricas, enquanto a regulação da água permite a perda e a recuperação do volume cerebral sem causar danos às células. Esses achados demonstram como a plasticidade tecidual assegura a sobrevivência em ambientes extremos, ao mesmo tempo que abre novas perspectivas para pesquisas biomédicas inovadoras.

Impactos na medicina e na pesquisa

Compreender o fenômeno de Dehnel pode inspirar pesquisas em diversas áreas, como o estudo de doenças neurodegenerativas, oferecendo potenciais novos alvos terapêuticos, e a investigação do metabolismo cerebral, com foco em biomarcadores de adaptação energética. Além disso, a análise da plasticidade reversível pode fornecer insights valiosos para a regeneração de tecidos humanos.

Embora essas descobertas não sejam diretamente aplicáveis a humanos, elas evidenciam como a evolução desenvolveu soluções engenhosas para equilibrar energia, sobrevivência e funcionalidade cerebral em ambientes extremos.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.