À primeira vista, Calisto, a lua mais externa entre os satélites galileanos de Júpiter, parece um mundo inerte e marcado apenas por impactos antigos. No entanto, um novo estudo mostra que, sob essa superfície congelada e altamente craterizada, podem existir informações valiosas sobre a evolução do Sistema Solar e até indícios de um oceano subterrâneo. Utilizando dados do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), pesquisadores conseguiram investigar os primeiros centímetros do solo dessa lua distante com um nível de detalhe inédito.
O trabalho, aceito pelo The Planetary Science Journal e intitulado Revelando as propriedades termofísicas do subsolo próximo de Calisto com dados de calibração do ALMA, foi conduzido por Cole Meyer e colaboradores (DOI: 10.48550/arxiv.2512.15850). A análise combinou observações térmicas feitas em 2012 com medições históricas da missão Galileo, permitindo uma comparação robusta entre superfície e subsolo raso. Logo nos primeiros resultados, o estudo trouxe avanços importantes, como:
- Estimativa precisa da temperatura média da superfície, em torno de 133 K;
- Caracterização do regolito em diferentes tipos de terreno;
- Indícios de variações térmicas no subsolo, sugerindo heterogeneidade estrutural.
Esses achados ajudam a refinar modelos sobre como o calor se comporta em luas geladas, algo essencial para avaliar a presença de água líquida abaixo da crosta.
Quando crateras contam histórias profundas

Diferentemente de Europa e Ganimedes, Calisto não apresenta sinais claros de atividade geológica recente. Paradoxalmente, essa aparente quietude é uma vantagem científica. A ausência de ressurgimento preserva registros antigos de impactos, funcionando como um arquivo natural dos primeiros bilhões de anos do Sistema Solar. Além disso, medições associadas ao campo magnético de Júpiter sustentam a hipótese de um oceano subterrâneo profundo, mesmo sem o intenso aquecimento de maré observado em outras luas.
Nesse contexto, o estudo com o ALMA estabelece uma base térmica essencial para missões futuras. A expectativa é que observações mais detalhadas permitam mapear como as propriedades físicas do gelo variam com a profundidade.
O papel da missão JUICE na próxima década
A pesquisa também dialoga diretamente com a missão JUICE (JUpiter ICy moons Explorer), da Agência Espacial Europeia, lançada em 2023 e com chegada prevista ao sistema joviano em 2031. Durante seus sobrevoos por Calisto, a sonda deverá ampliar significativamente o entendimento sobre sua estrutura interna, composição e potencial oceânico.
Assim, Calisto deixa de ser apenas a lua “mais antiga e craterizada” de Júpiter para se tornar uma peça-chave na investigação sobre mundos oceânicos, habitabilidade e a história primordial do nosso sistema planetário.

