As estatinas estão entre os medicamentos mais prescritos no mundo para reduzir o colesterol e prevenir doenças cardiovasculares. No entanto, apesar de sua eficácia comprovada, muitas pessoas abandonam o tratamento por um motivo recorrente: dores musculares persistentes, fraqueza e sensação de fadiga. Agora, uma nova descoberta científica ajuda a explicar por que isso acontece em parte dos pacientes.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Columbia University Irving Medical Center identificou um mecanismo celular até então pouco compreendido. Segundo a pesquisa, algumas estatinas podem interferir diretamente no funcionamento interno das células musculares, provocando alterações que levam ao desconforto físico.
O que acontece dentro das células musculares
A pesquisa mostrou que certas estatinas, como a sinvastatina, podem se ligar a uma proteína essencial presente no músculo esquelético, conhecida como receptor de rianodina tipo 1 (RyR1). Essa proteína atua como um canal responsável por regular o fluxo de cálcio dentro das células.
Quando esse canal é alterado, ocorre um vazamento anormal de cálcio, fazendo com que o mineral se acumule em regiões onde não deveria estar. Esse desequilíbrio prejudica o funcionamento muscular e pode desencadear processos de degradação lenta das fibras musculares.
Como resultado, surgem sintomas como:
- Dor muscular difusa
- Fraqueza progressiva
- Redução da resistência física
- Sensação constante de cansaço
Embora nem todos os usuários de estatinas desenvolvam esses efeitos, o impacto é relevante, já que milhões de pessoas utilizam esse tipo de medicamento diariamente.
Como os cientistas chegaram a essa descoberta

Para desvendar o mecanismo, os pesquisadores utilizaram microscopia crioeletrônica, uma técnica avançada que permite observar estruturas celulares em nível quase atômico. Com isso, foi possível visualizar como a estatina se encaixa na proteína muscular e altera sua função.
Os resultados foram publicados no periódico científico Journal of Clinical Investigation, no estudo intitulado “Base estrutural da fraqueza muscular esquelética induzida pela simvastatina associada à mutação RyR1 T4709M”, assinado por Gunnar Weninger et al (DOI: 10.1172/JCI194490).
Caminho para estatinas mais seguras
Além de explicar o problema, a descoberta abre novas possibilidades terapêuticas. Uma das estratégias em estudo é o desenvolvimento de estatinas reformuladas, capazes de reduzir o colesterol sem interferir no receptor de rianodina.
Outra abordagem promissora envolve medicamentos que bloqueiam o vazamento de cálcio, preservando a integridade muscular mesmo durante o uso das estatinas. Em testes com animais, esse tipo de intervenção demonstrou reduzir significativamente os danos musculares.
O que essa descoberta muda na prática
Essa nova compreensão ajuda a esclarecer um dos efeitos colaterais mais comuns e frustrantes associados às estatinas. Além disso, reforça a importância de tratamentos mais personalizados, capazes de proteger tanto o coração quanto a saúde muscular.
Com o avanço dessas pesquisas, o futuro aponta para medicamentos mais eficazes e com menos efeitos adversos, aumentando a adesão ao tratamento e melhorando a qualidade de vida dos pacientes.

