O peixe da Amazônia que venceu a seca ao aprender a respirar ar puro

A adaptação que permite a um peixe da Amazônia sobreviver à seca (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
A adaptação que permite a um peixe da Amazônia sobreviver à seca (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Em um dos ambientes mais desafiadores do planeta, a Amazônia, alguns peixes desenvolveram uma capacidade rara: respirar fora da água. Essa adaptação evolutiva não é um truque pontual, mas o resultado de milhares de anos de seleção natural em rios sujeitos a secas, lamaçais e baixos níveis de oxigênio. Assim, a biologia encontrou uma solução engenhosa para garantir a continuidade da vida mesmo quando a água deixa de ser confiável.

Diferentemente dos peixes que dependem exclusivamente das brânquias, essas espécies contam com sistemas alternativos altamente eficientes. Como consequência, conseguem atravessar períodos críticos em que outras formas de vida aquática simplesmente não resistem.

Logo após compreender esse cenário, vale destacar os principais fatores ambientais que impulsionaram essa evolução:

  • Redução drástica do oxigênio dissolvido na água;
  • Altas temperaturas, que diminuem a solubilidade do gás;
  • Ambientes alagadiços e ricos em matéria orgânica em decomposição;
  • Necessidade de locomoção entre corpos d’água isolados.

Quando a respiração deixa de ser apenas branquial

O grande diferencial está na chamada respiração aérea acessória. Nesse mecanismo, órgãos originalmente destinados a outras funções passaram a absorver oxigênio atmosférico. Em algumas espécies, a bexiga natatória tornou-se ricamente vascularizada, funcionando de forma semelhante a um pulmão. Em outras, há contribuição da pele, do trato digestório ou de estruturas internas especializadas.

Respirar ar foi a solução evolutiva de um peixe da Amazônia (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Respirar ar foi a solução evolutiva de um peixe da Amazônia (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Além disso, a circulação sanguínea nessas regiões é intensa, o que garante trocas gasosas rápidas e eficazes. Dessa forma, mesmo fora da água por períodos prolongados, o metabolismo se mantém estável.

Entre os exemplos mais conhecidos está o pirarucu, que precisa subir à superfície regularmente para captar ar. Também se destacam espécies como o muçum, adaptado a ambientes lamacentos, e alguns cascudos, capazes de absorver oxigênio pelo trato digestório.

Vantagem evolutiva e impacto ecológico

Essa habilidade vai além da sobrevivência individual. Ao ocupar ambientes hostis, esses peixes exploram nichos ecológicos exclusivos, evitando competidores e predadores que não toleram condições hipóxicas. Consequentemente, ajudam a manter o equilíbrio da cadeia alimentar durante períodos de seca severa.

Além disso, estudos publicados em revistas como Journal of Experimental Biology e Biology Letters indicam que essas adaptações oferecem pistas valiosas sobre como a fauna pode reagir às mudanças climáticas e ao aquecimento das águas continentais.

Por fim, compreender essas estratégias biológicas reforça a importância da preservação dos ecossistemas amazônicos. A destruição de áreas alagadas e a alteração do regime dos rios ameaçam diretamente espécies que dependem desse delicado equilíbrio. Proteger esses peixes é, portanto, preservar uma das mais impressionantes demonstrações da evolução em ação.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.