Detectar a doença de Alzheimer antes do surgimento dos sintomas sempre foi um dos maiores desafios da neurociência. Porém, uma nova pesquisa sugere que o próprio cérebro emite um sinal elétrico sutil, praticamente invisível aos métodos tradicionais, capaz de indicar o risco da doença anos antes do diagnóstico clínico. Essa descoberta abre uma nova fronteira na detecção precoce da neurodegeneração.
O avanço é especialmente relevante para pessoas com comprometimento cognitivo leve, condição que pode permanecer estável ou evoluir para Alzheimer. Identificar quem está em maior risco sempre foi uma lacuna importante na prática clínica.
O que a ciência encontrou na atividade neural
O estudo, publicado na revista científica Imaging Neuroscience, analisou padrões elétricos do cérebro associados à memória. A pesquisa, intitulada “Evento beta transitório de alta potência de 12–30 Hz apresenta-se como biomarcadores iniciais da conversão da doença de Alzheimer: um estudo MEG”, foi conduzida por Danylyna Shpakivska-Bilan et al (DOI: 10.1162/IMAG.a.69).
Os pesquisadores identificaram alterações específicas nos chamados eventos beta, oscilações elétricas do cérebro ligadas ao processamento da memória. Essas mudanças surgiram anos antes do diagnóstico formal da doença.
Como o cérebro foi analisado sem procedimentos invasivos
Para captar esses sinais, foi utilizada a magnetoencefalografia (MEG), uma técnica não invasiva que registra a atividade elétrica cerebral em tempo real. Os exames foram realizados enquanto os participantes permaneciam em repouso, com os olhos fechados.
Diferentemente das análises convencionais, que costumam trabalhar com médias gerais de sinais, o estudo aplicou uma abordagem mais refinada, capaz de observar eventos neurais individuais, revelando detalhes antes ocultos.
O padrão cerebral que antecipa a doença

Ao comparar os dados, os cientistas observaram que indivíduos que evoluíram para Alzheimer apresentavam eventos beta com características específicas:
- Menor frequência de ocorrência
- Duração mais curta
- Redução da potência elétrica
Essas alterações indicam uma disfunção precoce nos circuitos neurais ligados à memória, mesmo quando os sintomas ainda não são perceptíveis no dia a dia.
Por que esse biomarcador é diferente dos atuais?
Os biomarcadores mais usados atualmente detectam proteínas associadas ao Alzheimer no sangue ou no líquido cefalorraquidiano. Embora importantes, eles não mostram diretamente como os neurônios estão funcionando.
Já esse novo marcador se baseia na atividade elétrica real do cérebro, oferecendo uma visão funcional da doença em seu estágio silencioso. Isso pode permitir diagnósticos mais precoces e uma avaliação mais precisa da eficácia de tratamentos futuros.
Um novo caminho para prevenção e tratamento
Ao revelar que o cérebro emite sinais claros antes da perda cognitiva avançada, o estudo reforça a importância da intervenção precoce. Identificar essas alterações com antecedência pode abrir espaço para terapias mais eficazes, quando o dano neuronal ainda é limitado.
Essa abordagem representa um passo importante rumo a uma medicina mais preventiva, baseada no funcionamento real do cérebro e não apenas em seus danos acumulados.

