Pacientes com câncer enfrentam desafios que vão muito além do tumor. Entre eles, as complicações cardíacas estão entre as mais graves e silenciosas, especialmente durante e após a quimioterapia. Mas, uma nova evidência científica sugere que um medicamento amplamente usado no tratamento do diabetes pode oferecer proteção significativa ao coração desses pacientes, melhorando a recuperação a longo prazo.
A descoberta foi apresentada no European Journal of Preventive Cardiology e traz novas perspectivas para a chamada cardio-oncologia, área que estuda os impactos do câncer e de seus tratamentos sobre o sistema cardiovascular.
Quando o tratamento oncológico afeta o coração
A quimioterapia é essencial para aumentar a sobrevida de milhões de pessoas com câncer. No entanto, determinados esquemas terapêuticos, como os que utilizam antraciclinas, estão associados a um risco elevado de insuficiência cardíaca. Estima-se que uma parcela relevante dos pacientes desenvolva alterações cardíacas permanentes, o que compromete a qualidade de vida e aumenta as taxas de hospitalização.
Diante desse cenário, a prevenção de danos ao coração tornou-se uma prioridade clínica, especialmente em pacientes que sobrevivem ao câncer, mas carregam sequelas cardiovasculares.
O papel dos inibidores de SGLT2 na proteção cardíaca

Os inibidores do cotransportador sódio-glicose 2, conhecidos como inibidores de SGLT2, são medicamentos já consagrados no tratamento do diabetes tipo 2. Nos últimos anos, eles também passaram a ser reconhecidos por seus benefícios cardiovasculares, incluindo a redução de hospitalizações por insuficiência cardíaca.
A nova pesquisa avaliou se esses efeitos positivos também poderiam beneficiar pacientes e sobreviventes de câncer, mesmo quando a insuficiência cardíaca está relacionada à quimioterapia.
O que os dados científicos revelam
A análise reuniu 13 estudos, envolvendo 88.273 pacientes e sobreviventes de câncer. Os resultados mostraram reduções expressivas nos desfechos cardiovasculares mais graves. Entre os principais achados, destacam-se:
- Redução superior a 50% no risco de insuficiência cardíaca ou hospitalização
- Queda de aproximadamente 71% no surgimento de novos casos de insuficiência cardíaca
- Resultados ainda mais relevantes em pacientes com câncer de mama tratadas com antraciclinas
Esses dados indicam que o uso de inibidores de SGLT2 pode representar uma estratégia eficaz para proteger o coração durante e após o tratamento oncológico.
Impacto potencial na prática clínica
O estudo intitulado Impacto dos inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 nos desfechos da insuficiência cardíaca em pacientes e sobreviventes de câncer: uma revisão sistemática e meta-análise, assinado por U Bhalraam et al, sugere que esses medicamentos podem, no futuro, integrar protocolos de cuidado em oncologia.
Embora mais pesquisas sejam necessárias para confirmar a indicação rotineira, os resultados reforçam o potencial dos inibidores de SGLT2 como uma ferramenta adicional na redução de complicações cardiovasculares em pacientes oncológicos.
A possibilidade de reaproveitar um medicamento já amplamente utilizado traz vantagens importantes, como segurança conhecida e fácil incorporação clínica. Essa descoberta representa um passo relevante rumo a tratamentos mais integrados, personalizados e focados na qualidade de vida de quem enfrenta o câncer.

