Luz solar transforma microplásticos em substâncias químicas tóxicas que contaminam rios 

Luz solar transforma microplásticos em poluição química invisível. (Imagem: Getty Images via Canva)
Luz solar transforma microplásticos em poluição química invisível. (Imagem: Getty Images via Canva)

Quando se pensa em poluição plástica, a imagem típica é a de garrafas boiando ou sacolas em rios. Porém, o problema real muitas vezes é invisível. Um estudo recente publicado em New Contaminants revelou que a luz solar transforma microplásticos em nuvens químicas que se dispersam em rios, lagos e oceanos, liberando uma série de compostos potencialmente tóxicos. Este fenômeno mostra que a poluição por plástico não é apenas visual: ela é química, invisível e contínua.

Microplásticos liberam compostos químicos invisíveis e altamente reativos

A exposição ao sol desencadeia uma reação química nos microplásticos, liberando moléculas dissolvidas na água. O estudo analisou diferentes tipos de plásticos: polietileno (PE) e PET, comuns de origem fóssil, e PLA e PBAT, considerados biodegradáveis. Curiosamente, mesmo os plásticos biodegradáveis, projetados para se degradar mais rapidamente, liberam mais carbono orgânico dissolvido, criando um paradoxo ambiental: são mais ecológicos, mas quimicamente mais ativos.

Microplásticos liberam compostos tóxicos que alteram rios e oceanos. (Imagem: SivStockMedia via Canva)
Microplásticos liberam compostos tóxicos que alteram rios e oceanos. (Imagem: SivStockMedia via Canva)

A pesquisa também destacou que a liberação química ocorre de forma constante, mesmo em águas já carregadas de compostos. A formação de uma fina película de água ao redor do microplástico apenas retarda a difusão, sem impedir a contaminação, enquanto a radiação ultravioleta acelera a quebra das ligações poliméricas. Além disso, análises químicas avançadas revelaram milhares de moléculas distintas, incluindo aditivos industriais como ftalatos, fragmentos de polímeros e produtos de reações fotoquímicas, além de compostos oxigenados, como álcoois, éteres, ácidos e carbonílicos, que apresentam alta reatividade. Principais pontos observados no estudo:

  • A liberação química ocorre de forma contínua e não depende da concentração da água;
  • Plásticos biodegradáveis liberam mais compostos devido à fragilidade de suas cadeias poliméricas;
  • A radiação ultravioleta é o principal fator que acelera a contaminação química;
  • A matéria orgânica derivada de plásticos contém milhares de moléculas altamente reativas.

Impactos ambientais e na saúde

Poluição invisível: plástico não some, ele contamina a água quimicamente. (Imagem: Getty Images via Canva)
Poluição invisível: plástico não some, ele contamina a água quimicamente. (Imagem: Getty Images via Canva)

Essas substâncias químicas invisíveis alteram os ecossistemas aquáticos de diversas maneiras, modificando redes microbianas e influenciando os ciclos de carbono e oxigênio, além de alterar a mobilidade e toxicidade de metais pesados, como cobre e cádmio. 

Elas também podem gerar subprodutos indesejados em sistemas de tratamento de água potável, tornando a gestão da água mais complexa. Por isso, reduzir a entrada de plásticos nos ecossistemas continua sendo essencial. 

Pesquisadores estão explorando ferramentas de aprendizado de máquina para prever a dispersão química e avaliar os riscos ambientais. O estudo evidencia que o combate à poluição plástica precisa considerar não apenas os resíduos visíveis, mas também a química invisível que ameaça rios, lagos e oceanos.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.