Descoberta revela como o útero sente força e controla o parto

Útero usa sensores de força para regular o parto. (Foto: Africa Images via Canva)
Útero usa sensores de força para regular o parto. (Foto: Africa Images via Canva)

O trabalho de parto sempre foi associado principalmente à ação dos hormônios. No entanto, uma nova descoberta científica mostra que o processo é muito mais complexo. Além dos sinais químicos, o útero é capaz de sentir força física, como pressão e estiramento, e usar essas informações para controlar o ritmo e a intensidade das contrações. Esse mecanismo ajuda a explicar por que, em alguns casos, o parto avança de forma eficiente e, em outros, acaba travando.

A descoberta foi descrita em um estudo liderado por Yunxiao Zhang, intitulado “Os canais PIEZO ligam forças mecânicas às contrações uterinas no parto”, publicado na revista científica Science. A pesquisa revela como sensores moleculares transformam estímulos físicos em sinais biológicos essenciais para o nascimento.

O papel da força física no trabalho de parto

Durante a gestação, o útero passa por um estiramento progressivo à medida que o feto cresce. No momento do parto, essa pressão atinge níveis máximos. O estudo mostrou que essas forças não são apenas consequências do processo, mas atuam como sinais ativos, informando ao organismo quando intensificar ou manter as contrações.

Esses estímulos mecânicos ajudam o útero a funcionar de forma coordenada, garantindo que o bebê seja conduzido com segurança pelo canal de parto. Quando esse sistema falha, as contrações podem se tornar fracas, irregulares ou insuficientes.

Sensores celulares que comandam as contrações

Sensores PIEZO coordenam o ritmo do parto. (Foto: Africa Images via Canva)
Sensores PIEZO coordenam o ritmo do parto. (Foto: Africa Images via Canva)

A pesquisa identificou dois sensores mecânicos fundamentais, conhecidos como PIEZO1 e PIEZO2. O PIEZO1 atua diretamente no músculo uterino, detectando o aumento da pressão durante as contrações. Já o PIEZO2 está presente nos nervos sensoriais do colo do útero e da vagina, sendo ativado quando esses tecidos são distendidos pela passagem do bebê.

Juntos, esses sensores convertem força física em sinais elétricos e químicos, sincronizando a atividade muscular. Esse sistema duplo cria uma espécie de circuito de feedback que mantém o trabalho de parto em andamento.

Quando o sistema falha, o parto desacelera

Para entender a importância desses sensores, os pesquisadores analisaram modelos experimentais nos quais os canais PIEZO foram desativados. O resultado foi claro: a pressão uterina diminuiu e o parto se tornou mais lento. Quando tanto o sensor muscular quanto o nervoso estavam comprometidos, o prejuízo foi ainda maior.

Além disso, a atividade dos canais PIEZO influencia a produção da conexina 43, uma proteína essencial para que as células musculares do útero se contraiam de forma sincronizada. Sem essa comunicação eficiente, as contrações perdem força e organização.

Evidências em tecido humano

O estudo também analisou tecido uterino humano, encontrando padrões semelhantes de expressão dos sensores PIEZO. Isso indica que o mesmo mecanismo observado experimentalmente provavelmente atua durante o parto em mulheres. 

Esses achados ajudam a compreender por que bloqueios sensoriais excessivos ou falhas na resposta mecânica podem prolongar o trabalho de parto.

Impacto para a medicina obstétrica

Essa descoberta abre novas possibilidades para o cuidado durante o parto. No futuro, compreender como modular esses sensores pode ajudar a corrigir partos estagnados, reduzir intervenções desnecessárias e até auxiliar na prevenção do parto prematuro. Embora essas aplicações ainda estejam em fase experimental, a base biológica do processo agora está mais clara.

A pesquisa reforça que o parto é resultado da integração entre hormônios, músculos e sistema nervoso, com a força física exercendo um papel central nesse equilíbrio delicado.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.