O trabalho de parto sempre foi associado principalmente à ação dos hormônios. No entanto, uma nova descoberta científica mostra que o processo é muito mais complexo. Além dos sinais químicos, o útero é capaz de sentir força física, como pressão e estiramento, e usar essas informações para controlar o ritmo e a intensidade das contrações. Esse mecanismo ajuda a explicar por que, em alguns casos, o parto avança de forma eficiente e, em outros, acaba travando.
A descoberta foi descrita em um estudo liderado por Yunxiao Zhang, intitulado “Os canais PIEZO ligam forças mecânicas às contrações uterinas no parto”, publicado na revista científica Science. A pesquisa revela como sensores moleculares transformam estímulos físicos em sinais biológicos essenciais para o nascimento.
O papel da força física no trabalho de parto
Durante a gestação, o útero passa por um estiramento progressivo à medida que o feto cresce. No momento do parto, essa pressão atinge níveis máximos. O estudo mostrou que essas forças não são apenas consequências do processo, mas atuam como sinais ativos, informando ao organismo quando intensificar ou manter as contrações.
Esses estímulos mecânicos ajudam o útero a funcionar de forma coordenada, garantindo que o bebê seja conduzido com segurança pelo canal de parto. Quando esse sistema falha, as contrações podem se tornar fracas, irregulares ou insuficientes.
Sensores celulares que comandam as contrações

A pesquisa identificou dois sensores mecânicos fundamentais, conhecidos como PIEZO1 e PIEZO2. O PIEZO1 atua diretamente no músculo uterino, detectando o aumento da pressão durante as contrações. Já o PIEZO2 está presente nos nervos sensoriais do colo do útero e da vagina, sendo ativado quando esses tecidos são distendidos pela passagem do bebê.
Juntos, esses sensores convertem força física em sinais elétricos e químicos, sincronizando a atividade muscular. Esse sistema duplo cria uma espécie de circuito de feedback que mantém o trabalho de parto em andamento.
Quando o sistema falha, o parto desacelera
Para entender a importância desses sensores, os pesquisadores analisaram modelos experimentais nos quais os canais PIEZO foram desativados. O resultado foi claro: a pressão uterina diminuiu e o parto se tornou mais lento. Quando tanto o sensor muscular quanto o nervoso estavam comprometidos, o prejuízo foi ainda maior.
Além disso, a atividade dos canais PIEZO influencia a produção da conexina 43, uma proteína essencial para que as células musculares do útero se contraiam de forma sincronizada. Sem essa comunicação eficiente, as contrações perdem força e organização.
Evidências em tecido humano
O estudo também analisou tecido uterino humano, encontrando padrões semelhantes de expressão dos sensores PIEZO. Isso indica que o mesmo mecanismo observado experimentalmente provavelmente atua durante o parto em mulheres.
Esses achados ajudam a compreender por que bloqueios sensoriais excessivos ou falhas na resposta mecânica podem prolongar o trabalho de parto.
Impacto para a medicina obstétrica
Essa descoberta abre novas possibilidades para o cuidado durante o parto. No futuro, compreender como modular esses sensores pode ajudar a corrigir partos estagnados, reduzir intervenções desnecessárias e até auxiliar na prevenção do parto prematuro. Embora essas aplicações ainda estejam em fase experimental, a base biológica do processo agora está mais clara.
A pesquisa reforça que o parto é resultado da integração entre hormônios, músculos e sistema nervoso, com a força física exercendo um papel central nesse equilíbrio delicado.

