O xenotransplante, que consiste em transferir órgãos ou tecidos de animais para humanos, tem se mostrado uma alternativa promissora diante da escassez de rins para transplante.
Um estudo inovador publicado na Nature Medicine, intitulado Immune profiling in a living human recipient of a gene-edited pig kidney por Guilherme T. Ribas, André F. Cunha e Jonathan P. Av, detalhou pela primeira vez a reação imunológica de um paciente vivo após receber um rim de porco geneticamente modificado.
A pesquisa revelou que, embora o controle tradicional da rejeição inicial funcione parcialmente, a imunidade inata permanece ativa, indicando que novas estratégias são essenciais para garantir a sobrevivência prolongada do órgão.
Entendendo a imunidade após xenotransplante
O estudo utilizou análises multiômicas, incluindo transcriptômica, proteômica, metabolômica e espacial, para mapear como o corpo humano reage a órgãos suínos:
- Primeira semana: ativação de linfócitos T, responsável pela rejeição celular.
- Mesmo com imunossupressores: monócitos e macrófagos permaneceram ativos, evidenciando a importância da imunidade inata.
- Lesão renal discreta: detectada por fragmentos de DNA do órgão (dd-cfDNA), sugerindo biomarcadores não invasivos para monitoramento em tempo real.
Essas descobertas indicam que apenas controlar a imunidade adaptativa, como em transplantes humanos convencionais, não é suficiente para prolongar a vida do enxerto.
Desafios e oportunidades para o futuro

Embora o transplante tenha sido viável, o paciente, de 62 anos, faleceu dois meses depois por fibrose miocárdica crônica pré-existente. Ainda assim, a pesquisa fornece insights cruciais:
- Necessidade de novas terapias direcionadas à imunidade inata.
- Possibilidade de engenharia genética avançada em órgãos doadores.
- Monitoramento mais sensível para rejeições precoces, potencialmente evitando biópsias invasivas.
Essas medidas podem transformar o xenotransplante em uma opção clínica segura e duradoura, abrindo caminhos para milhares de pacientes com doença renal crônica, incluindo os 10 a 12 milhões de brasileiros afetados.
Importância para a saúde global
No Brasil, o transplante renal é o mais demandado, com 6.670 cirurgias realizadas em 2025. Diante do aumento da população idosa e da prevalência de diabetes, hipertensão e obesidade, soluções como o xenotransplante podem reduzir a dependência da diálise e salvar vidas.
Além disso, a pesquisa conduzida no Hospital Geral de Massachusetts e Harvard Medical School, com participação de cientistas brasileiros, demonstra o valor da colaboração internacional na inovação médica. Estudos complementares, como o publicado em novembro de 2025 avaliando a rejeição em pacientes com morte cerebral, reforçam o potencial da área.
Perspectivas de inovação
O avanço do xenotransplante depende da integração de:
- Terapias que modulam a imunidade inata.
- Engenharia genética para reduzir a resposta inflamatória.
- Monitoramento de DNA livre de células derivado do doador como marcador precoce de rejeição.
Essa abordagem multifacetada promete transformar o tratamento de doenças renais graves e ampliar o acesso a órgãos compatíveis, sem depender exclusivamente de doadores humanos.

