Poucos lugares no planeta concentram tantas camadas da história humana quanto a região ao redor do Estreito de Gibraltar. Ali, em abrigos rochosos do sul da Espanha e do norte de Marrocos, encontram-se registros visuais produzidos tanto por neandertais quanto por Homo sapiens, formando a única tradição de arte rupestre intercontinental conhecida. Mais do que imagens antigas, essas marcas revelam criatividade, adaptação e continuidade cultural ao longo de dezenas de milhares de anos.
Além disso, esse conjunto cobre praticamente todo o arco temporal da arte rupestre, do Paleolítico profundo até períodos históricos, algo extremamente raro no registro arqueológico mundial. Veja o que torna essa região excepcional:
- Presença confirmada de arte atribuída a duas espécies humanas distintas;
- Continuidade artística por dezenas de milênios;
- Distribuição em dois continentes diferentes;
- Variedade de técnicas, símbolos e pigmentos.
Muito além de simples pinturas
As evidências mais antigas incluem estênceis de mãos, produzidos ao soprar pigmentos minerais sobre a rocha. Essas marcas, amplamente distribuídas pela região, indicam uma tradição simbólica compartilhada e possivelmente ritualística. Algumas delas são comparáveis às mais antigas da Europa e associadas a populações neandertais, enquanto outras pertencem claramente a humanos modernos.

Com o tempo, surgem representações mais complexas. Gravuras geométricas e cenas figurativas apontam para uma evolução cognitiva e cultural significativa. Em certos sítios, aparecem inclusive desenhos de embarcações, sugerindo conhecimento náutico e deslocamentos costeiros muito anteriores ao que se imaginava para a região do Mediterrâneo ocidental.
Um elo cultural entre África e Europa
Apesar da presença do mar como barreira natural, análises comparativas mostram fortes semelhanças estilísticas entre os dois lados do Estreito. Pigmentos, técnicas e padrões visuais indicam que essas manifestações fazem parte de uma mesma tradição cultural, e não de fenômenos isolados.
Isso reforça a ideia de que o Estreito de Gibraltar funcionou, em certos períodos, menos como fronteira e mais como ponte cultural pré-histórica, especialmente durante fases de nível do mar mais baixo.
Mesmo com sua importância científica, muitos desses sítios permanecem pouco estudados e mal protegidos. A ausência de reconhecimento internacional formal dificulta estratégias eficazes de conservação, colocando em risco um dos registros mais valiosos da evolução simbólica humana.
O estudo, publicado na revista Quaternary e assinado por pesquisadores liderados por Benjamin Taub, reforça a urgência de ações coordenadas para proteger essas superfícies rochosas, que ajudam a contar uma história essencial sobre quem somos e de onde viemos.

