Descobertas científicas nem sempre começam com escavações em campo. Em alguns casos, elas surgem de arquivos antigos, fotografias esquecidas e registros preservados ao longo de décadas. Foi assim que pesquisadores identificaram uma nova espécie de dinossauro predador gigante do Norte da África, que viveu há cerca de 95 milhões de anos, a partir de imagens históricas feitas no início do século XX.
Um predador africano que ficou sem identidade
O fóssil original desse grande dinossauro foi encontrado em 1914, no Oásis de Bahariya, no Egito, uma região conhecida por sua rica diversidade de vertebrados do período Cretáceo. Na época, o material foi enviado para Munique e passou a integrar a Coleção Estatal Bávara de Paleontologia e Geologia, mas acabou sendo completamente destruído anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, restando apenas registros documentais.
Com o conhecimento disponível naquele momento, o animal foi classificado como pertencente ao gênero Carcharodontosaurus, um grupo de grandes predadores com dentes semelhantes aos de tubarões e porte comparável ao do Tyrannosaurus rex. Essa identificação permaneceu aceita por décadas, mesmo sem novos estudos detalhados.
Imagens antigas ganham novo significado

O cenário mudou após a análise de fotografias de arquivo até então desconhecidas, que mostravam o esqueleto original em exposição, incluindo partes do crânio, da coluna vertebral e dos membros posteriores. Essas imagens permitiram uma reavaliação anatômica cuidadosa do animal.
O estudo científico “Tameryraptor markgrafi, a new predatory dinosaur from the Cretaceous of North Africa identified from historical photographs”, publicado na revista PLOS ONE, foi conduzido por Maximilian Kellermann, Oliver Rauhut e Elena Cuesta. A comparação entre as fotos históricas e fósseis africanos descritos mais recentemente revelou diferenças estruturais claras.
Essas diferenças indicaram que o dinossauro egípcio não se encaixava no gênero originalmente atribuído, levando à identificação de uma espécie totalmente nova.
Características do Tameryraptor markgrafi

A nova espécie foi batizada de Tameryraptor markgrafi, unindo uma referência ao antigo nome do Egito, Tamery, e uma homenagem ao coletor de fósseis Richard Markgraf.
O animal apresentava traços marcantes:
- Cerca de 10 metros de comprimento
- Dentes simétricos, distintos dos carcharodontossauros clássicos
- Chifre nasal proeminente, sugerindo um crânio robusto
- Estrutura compatível com grandes predadores terrestres
Análises evolutivas indicam que o Tameryraptor estava relacionado a grandes carnívoros da África, América do Sul e a grupos asiáticos conhecidos como metriacantossauros, reforçando conexões faunísticas entre continentes no Cretáceo.
Um ecossistema mais complexo do que se imaginava
A identificação do Tameryraptor sugere que a fauna de dinossauros predadores do Norte da África era mais diversa do que os registros atuais indicam. Muitas espécies podem ter existido sem deixar fósseis completos acessíveis, tornando arquivos históricos uma fonte científica valiosa.
Além disso, o estudo demonstra que fotografias, desenhos e descrições antigas podem revelar informações inéditas quando analisadas com técnicas modernas e novos referenciais comparativos.

