Cães podem aprender nomes de objetos só ouvindo conversas; revela estudo

Alguns cães captam palavras como crianças pequenas. (Foto: Damedeeso via Canva)
Alguns cães captam palavras como crianças pequenas. (Foto: Damedeeso via Canva)

Alguns cães não apenas seguem comandos básicos como “senta”, por exemplo. Estudos recentes mostram que cães com habilidades especiais podem aprender novas palavras apenas ouvindo conversas humanas, da mesma forma que crianças pequenas assimilam vocabulário de forma passiva. Essa descoberta desafia a compreensão tradicional sobre inteligência canina e destaca habilidades cognitivas surpreendentes.

O estudo, publicado na revista Science (2026), com o título “Cães com um amplo vocabulário de nomes de objetos aprendem novos nomes por meio da escuta”, foi conduzido por Shany Dror e Claudia Fugazza, da Universidade Eötvös Loránd, e demonstra que cães superdotados na aprendizagem de palavras (GWL) conseguem memorizar nomes de objetos apenas observando interações humanas sem receber instruções diretas.

O que torna esses cães tão especiais

Embora todos os cães consigam aprender comandos simples, apenas um grupo muito restrito apresenta a habilidade de aprender nomes de objetos e expandir seu vocabulário. Esses cães GWL conhecem dezenas de brinquedos pelo nome e podem aprender novos nomes rapidamente, inclusive sem que os donos lhes falem diretamente.

A pesquisa sugere que esses cães utilizam mecanismos sociocognitivos semelhantes aos de crianças pequenas, incluindo:

  • Observação atenta da interação entre humanos
  • Interpretação do olhar e gestos
  • Extração de palavras-alvo de um fluxo contínuo de fala

Experimentos comprovam aprendizado por escuta passiva

Aprendizado passivo permite cães memorizar vocabulário. (Foto: Getty Images via Canva)
Aprendizado passivo permite cães memorizar vocabulário. (Foto: Getty Images via Canva)

Para testar a habilidade dos cães GWL, os pesquisadores realizaram dois experimentos principais:

  • Fala direta: donos apresentavam novos brinquedos e nomeavam enquanto interagiam com os cães.
  • Fala ouvida por acaso: os cães apenas ouviam os donos conversando com outra pessoa sobre os brinquedos, sem interação direta.

Cada brinquedo foi exposto por apenas oito minutos, distribuídos em sessões curtas. Em seguida, os cães foram solicitados a buscar os brinquedos pelo nome em uma sala diferente. 

O resultado surpreendeu: 7 dos 10 cães aprenderam os nomes em ambas as condições, com 80% de acertos na fala direta e 100% na escuta passiva, mostrando que a aprendizagem passiva é tão eficaz quanto a instrução direta.

Desafios e flexibilidade cognitiva

Em um segundo teste, os pesquisadores separaram visualmente os brinquedos do momento em que seus nomes eram pronunciados, simulando uma descontinuidade temporal entre objeto e palavra

Mesmo assim, a maioria dos cães talentosos aprendeu corretamente, demonstrando flexibilidade cognitiva e capacidade de associar palavras a objetos de forma independente.

Implicações do estudo

Esta pesquisa revela que:

  • Alguns mecanismos de aprendizagem linguística não são exclusivos dos humanos
  • Cães superdotados podem servir de modelo para entender aquisição de linguagem
  • A habilidade depende de predisposição individual e experiências únicas de vida

Embora apenas uma minoria de cães apresente essas habilidades extraordinárias, o estudo abre caminhos para explorar novas formas de comunicação e treinamento entre humanos e cães.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.