Fóssil no Marrocos pode revelar a origem mais antiga da linhagem humana

Fóssil no Marrocos revela pistas sobre a origem do Homo sapiens (Imagem: Hamza Mehimdate, Program Préhistoire de Casablanca)
Fóssil no Marrocos revela pistas sobre a origem do Homo sapiens (Imagem: Hamza Mehimdate, Program Préhistoire de Casablanca)

Uma descoberta no norte da África está mudando a forma como cientistas entendem a origem evolutiva do Homo sapiens. Fósseis humanos com cerca de 773 mil anos, encontrados no Marrocos, indicam a existência de uma população africana extremamente antiga, posicionada próxima à raiz da linhagem que deu origem aos humanos modernos, aos neandertais e aos denisovanos. O estudo, publicado na revista Nature, oferece uma das evidências mais bem datadas e completas do Pleistoceno africano, período-chave da evolução humana.

Além disso, o achado reforça o papel estratégico do noroeste da África como um importante corredor evolutivo, conectando populações humanas antigas em diferentes regiões do continente e além dele. Logo nos primeiros resultados, o estudo se destaca por três aspectos centrais:

  • Datação excepcionalmente precisa, baseada em magnetoestratigrafia;
  • Fósseis raros e bem preservados, incluindo mandíbulas adultas e infantis;
  • Características anatômicas intermediárias, fundamentais para entender a ancestralidade humana.

Uma cápsula do tempo no litoral marroquino

Os fósseis foram encontrados na Pedreira Thomas I, próxima à cidade de Casablanca, em um sistema de cavernas formado por antigas variações do nível do mar. Esse ambiente geológico favoreceu a preservação contínua dos sedimentos, criando um registro quase ininterrupto do passado.

Mandíbula africana de 773 mil anos reescreve a evolução humana (Imagem: Hamza Mehimdate, Program Préhistoire de Casablanca)
Mandíbula africana de 773 mil anos reescreve a evolução humana (Imagem: Hamza Mehimdate, Program Préhistoire de Casablanca)

Como resultado, foi possível ancorar os fósseis exatamente no momento da transição Brunhes–Matuyama, a última grande inversão do campo magnético da Terra. Esse marcador é considerado um dos mais confiáveis da geologia, permitindo uma idade extremamente precisa para os restos humanos.

Hominídeos próximos à raiz do Homo sapiens

As análises anatômicas revelam um mosaico evolutivo: os fósseis não pertencem ao Homo erectus nem ao Homo antecessor, mas compartilham características com ambos. Essa combinação sugere que esses hominídeos representam populações basais, próximas ao último ancestral comum dos humanos modernos e das linhagens arcaicas da Eurásia.

Os dentes, em especial, preservam traços primitivos e não exibem características típicas dos neandertais, indicando que diferenças regionais entre populações humanas já existiam muito antes do surgimento do Homo sapiens propriamente dito.

Implicações para a evolução humana

Esse achado fortalece a ideia de uma origem africana profunda e complexa, marcada por múltiplas populações interligadas. Durante fases climáticas mais úmidas, o atual deserto do Saara teria funcionado como ponte ecológica, facilitando migrações e trocas genéticas.

Mais importante ainda, os fósseis marroquinos se alinham com estimativas genéticas que posicionam o último ancestral comum entre 765 mil e 550 mil anos atrás, oferecendo um raro elo entre dados fósseis e moleculares.

A descoberta no Marrocos não apenas amplia o mapa da evolução humana, mas também aproxima a ciência de responder uma das perguntas mais fundamentais da biologia: quem fomos antes de nos tornarmos humanos modernos. Esses fósseis representam, até agora, alguns dos melhores candidatos a ocupar esse lugar na árvore evolutiva.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.