Um vasto planalto nos Andes bolivianos guarda um dos registros mais impressionantes da história dos dinossauros. Em Carreras Pampa, dentro do atual Parque Nacional Toro Toro, milhares de pegadas fossilizadas transformaram o solo em um verdadeiro arquivo do passado, revelando não apenas a presença desses animais, mas detalhes surpreendentes de como eles se moviam, interagiam e exploravam o ambiente há mais de 66 milhões de anos.
Após seis anos de trabalho de campo sistemático, uma equipe internacional documentou 16.600 pegadas de dinossauros terópodes, grupo que inclui predadores bípedes como o Tyrannosaurus rex.
A pesquisa foi liderada por Raúl Esperante, com coautoria de Roberto Biaggi, e publicada na revista científica PLOS One, no estudo intitulado Morfotipos, preservação e tafonomia de pegadas de dinossauros, marcas de cauda e rastros de natação no maior sítio de pegadas do mundo: Carreras Pampa (Cretáceo Superior), Parque Nacional Torotoro, Bolívia.
Registro comportamental esculpido na lama
Diferentemente de fósseis ósseos, as pegadas preservam comportamentos em tempo real. Em Toro Toro, os rastros mostram dinossauros caminhando em grupo, acelerando o passo, mudando de direção e até realizando tentativas de natação. Foram identificadas mais de 1.300 marcas associadas a movimentos em água, deixadas quando os animais arranhavam o fundo lamacento de antigos corpos d’água.
A preservação excepcional ocorreu porque os dinossauros pisaram em sedimentos úmidos pouco antes da elevação do nível da água, o que selou rapidamente os rastros e os protegeu da erosão ao longo de milhões de anos.
Gigantes e pequenos dividindo o mesmo caminho

A variedade de tamanhos das pegadas revela um cenário dinâmico. Animais de até 10 metros de comprimento compartilharam o ambiente com pequenos terópodes do tamanho de uma galinha, com cerca de 30 centímetros de altura no quadril. Esse padrão sugere deslocamentos em grupo e uma convivência entre indivíduos de diferentes idades e portes.
Além disso, todas as pegadas foram encontradas em uma mesma camada sedimentar, indicando um período relativamente curto de atividade intensa naquela região.
Por que não há ossos de dinossauros no local?
Apesar da abundância de pegadas, quase não há ossos, dentes ou ovos fossilizados na área. Os dados sugerem que Carreras Pampa não era um local de habitação permanente, mas sim uma rota de passagem, possivelmente parte de um antigo corredor costeiro que ligava regiões do atual Peru ao noroeste da Argentina.
Fatores naturais e atividades humanas recentes, como agricultura e mineração, também podem ter contribuído para a ausência de restos esqueléticos.
Um patrimônio científico sob risco
Embora tenham resistido por milhões de anos, as pegadas enfrentam ameaças modernas, incluindo obras de infraestrutura e exploração de rochas. Por isso, o sítio se tornou prioridade para conservação, já que oferece uma visão rara da vida cotidiana dos dinossauros no final do Cretáceo.
Com novas áreas ainda inexploradas, os pesquisadores acreditam que outros milhares de rastros possam ser encontrados, ampliando ainda mais esse registro único da história da vida na Terra.

