A dengue é conhecida por causar febre alta, dores intensas e, em casos mais graves, risco de morte. No entanto, um paradoxo intriga médicos e cientistas há décadas: por que algumas pessoas são infectadas pelo vírus e não apresentam qualquer sintoma? Um estudo internacional recente ajuda a esclarecer esse mistério ao revelar que o desfecho da infecção está diretamente ligado ao modo como o sistema imunológico reage nos primeiros momentos.
Publicado na revista científica Science Translational Medicine, o trabalho traz uma das análises mais detalhadas já realizadas sobre as diferenças imunológicas entre infecções assintomáticas e quadros graves de dengue.
Respostas muito diferentes para a mesma doença
A dengue infecta centenas de milhões de pessoas todos os anos, sobretudo em regiões tropicais. Ainda assim, apenas uma parte desenvolve sintomas clínicos. O novo estudo mostrou que essa diferença não é aleatória. Ela está associada a padrões específicos de ativação do sistema imunológico.
Ao comparar indivíduos sem sintomas, pacientes com dengue clássica e casos graves, os pesquisadores observaram que a proteção parece vir da imunidade celular, enquanto as formas mais severas se relacionam a respostas baseadas principalmente em anticorpos.
Imunidade celular como escudo natural

Pessoas que passaram pela infecção sem apresentar sintomas exibiram ativação mais eficiente dos linfócitos T CD8, células especializadas em destruir células infectadas pelo vírus. Além disso, foi identificado um perfil distinto de células natural killer, fundamentais para conter a replicação viral logo no início da infecção.
Outro achado importante foi o processamento mais eficiente dos antígenos virais, permitindo que o sistema imunológico reconheça o vírus com rapidez e precisão. Esse conjunto de respostas cria uma defesa precoce que limita a disseminação do vírus antes que ele cause danos significativos.
Quando os anticorpos se tornam um problema
Nos pacientes que desenvolveram sintomas, especialmente nos quadros mais graves, o cenário foi diferente. O estudo identificou uma resposta imunológica marcada pela expansão de plasmablastos, células produtoras de anticorpos, e pela ação elevada da citocina IL-10, conhecida por modular inflamações.
Esse tipo de resposta pode favorecer inflamação desregulada e facilitar a entrada do vírus nas células, mecanismo frequentemente associado à progressão para dengue grave. Assim, paradoxalmente, uma resposta imunológica intensa nem sempre significa proteção.
A resposta imune muda com o tempo
Além da análise inicial, os pesquisadores acompanharam parte dos pacientes por até dois meses. Os dados mostraram que a imunidade contra a dengue é dinâmica, mudando da fase aguda para a recuperação.
Isso reforça que o quadro clínico não depende de um único fator, mas de uma combinação de respostas ao longo do tempo.
O que esse estudo muda na prática
Os resultados ajudam a redesenhar estratégias futuras de combate à dengue, especialmente no desenvolvimento de vacinas e terapias imunológicas. Estimular respostas semelhantes às observadas em indivíduos assintomáticos pode ser a chave para reduzir a gravidade da doença.
Apesar das limitações, como o número reduzido de pessoas assintomáticas analisadas, o estudo oferece um mapa imunológico valioso sobre proteção natural contra a dengue.

