Mamute congelado há 40 mil anos revela atividade genética antes da morte

Mamute Yuka manteve moléculas frágeis por 40 mil anos. (Foto: Cyclonaut via Wikimedia Commons)
Mamute Yuka manteve moléculas frágeis por 40 mil anos. (Foto: Cyclonaut via Wikimedia Commons)

Em uma região remota da Sibéria, um achado extraordinário continua a surpreender a ciência. A múmia de um mamute-lanoso juvenil, preservada no permafrost por quase 40 mil anos, revelou algo considerado impossível até pouco tempo atrás: fragmentos de RNA antigo ainda reconhecíveis. Essa descoberta abre uma nova janela para compreender como os genes funcionavam em animais extintos.

O estudo científico Ancient RNA Reveals Tissue-Specific Gene Activity in a 40,000-Year-Old Mammoth, publicado em novembro de 2025 na revista Cell, tem como autor principal Emilio Mármol e marca um avanço histórico na biologia molecular aplicada à paleontologia.

Por que o RNA encontrado é tão revolucionário?

Enquanto o DNA fornece o manual genético de um organismo, o RNA revela quais genes estavam ativos em determinados tecidos e momentos da vida. O grande desafio é que o RNA se degrada rapidamente após a morte, o que sempre limitou sua recuperação em materiais antigos.

No caso do mamute conhecido como Yuka, os pesquisadores conseguiram identificar moléculas de RNA associadas ao desenvolvimento muscular, algo jamais observado em espécimes tão antigos. Isso transforma o RNA em uma ferramenta poderosa para entender não apenas a genética, mas também a fisiologia de espécies extintas.

Evidências celulares dos últimos momentos de vida

Crânio e maxilar inferior pertencentes ao mamute juvenil Yuka. (Foto: Nandaro via Wikimedia Commons)
Crânio e maxilar inferior pertencentes ao mamute juvenil Yuka. (Foto: Nandaro via Wikimedia Commons)

As análises revelaram que o tecido muscular de Yuka continha altos níveis de RNA relacionados ao estresse celular. Esse padrão sugere que o jovem mamute passou por momentos fisiologicamente intensos pouco antes de morrer. Embora a causa exata ainda seja incerta, os dados moleculares indicam um evento traumático registrado diretamente na atividade genética do animal.

Além disso, entre os dez mamutes analisados no estudo, apenas três apresentaram RNA preservado. Yuka, porém, se destacou por conter as cadeias mais longas e funcionais, tornando-se o espécime mais informativo já estudado.

Detalhe inesperado sobre a identidade do mamute

Outro resultado surpreendente surgiu da análise genética. Embora por anos se acreditasse que Yuka fosse fêmea, os dados moleculares confirmaram que se tratava de um mamute macho, portador dos cromossomos X e Y. Essa descoberta exige uma reinterpretação de aspectos importantes do crescimento e do desenvolvimento do animal.

Esse tipo de correção demonstra como técnicas modernas conseguem refinar hipóteses antigas e ampliar a precisão das reconstruções paleobiológicas.

Vale destacar que a recuperação de RNA tão antigo também levanta novas possibilidades. Moléculas desse tipo podem ajudar a investigar a presença de vírus pré-históricos, compreender respostas celulares ao frio extremo e até mapear diferenças de expressão gênica entre espécies extintas e vivas.

Embora esses dados não sejam suficientes, por si só, para trazer mamutes de volta à vida, eles representam um passo essencial para entender como características únicas, como a pelagem espessa, eram ativadas geneticamente.

Ao preservar não apenas ossos, mas também a atividade molecular da vida, o permafrost siberiano se consolida como um dos maiores arquivos biológicos naturais do planeta.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.