Seleção humana transformou cães e gatos em “bebês eternos”

Crânios braquicefálicos unem cães e gatos modernos. (Foto: Getty Images e ROM CREATOR via Canva)
Crânios braquicefálicos unem cães e gatos modernos. (Foto: Getty Images e ROM CREATOR via Canva)

A aparência de pugs, gatos persas e outras raças de focinho achatado não é fruto do acaso. Pesquisas publicadas nos Anais da Academia Nacional de Ciências dos EUA mostram que a seleção humana ao longo de décadas e séculos moldou animais de estimação para se parecerem com bebês eternos, com rostos redondos, olhos grandes e focinhos curtos.

O resultado é uma evolução convergente: raças de cães e gatos braquicefálicos compartilham crânios mais semelhantes entre si do que com seus ancestrais selvagens. Isso significa que os humanos apagaram milhões de anos de diferenças evolutivas em poucas gerações.

Anatomia dos “bebês eternos”

Animais braquicefálicos exibem alterações cranianas dramáticas que incluem:

  • Focinho curto e arredondado
  • Palato elevado, reduzindo a região nasal
  • Espaço restrito na garganta, dificultando a respiração
  • Alterações ósseas nos gatos persas, inclusive ausência de ossos nasais em alguns casos

Essas características conferem o aspecto infantil, mas também criam sérios problemas de saúde, como dificuldades respiratórias, sensibilidade ao calor, problemas dentários e neurológicos.

Pressão artificial versus seleção natural

Normalmente, a evolução convergente ocorre na natureza, quando espécies diferentes desenvolvem traços semelhantes para se adaptar a pressões ambientais semelhantes. No caso de cães e gatos, a pressão é totalmente humana: buscamos traços que evocam fofura e inocência.

A pesquisa revelou que a seleção artificial gerou formas cranianas inéditas, que nunca teriam surgido na natureza. Raças extremas incluem:

  • Cães: Pug, Bulldog Inglês e Francês, Boston Terrier, Shih Tzu, Pequinês, Chin Japonês e Griffon de Bruxelas
  • Gatos: Persa, Himalaios e Birmanês

Impacto na saúde e bem-estar animal

Raças extremas enfrentam problemas respiratórios graves. (Foto: Pexels via Canva)
Raças extremas enfrentam problemas respiratórios graves. (Foto: Pexels via Canva)

Embora a aparência “fofa” seja atraente, ela tem consequências severas para os animais:

  • Dificuldade para respirar, muitas vezes requerendo cirurgia
  • Problemas oculares, dentários e neurológicos
  • Baixa tolerância a calor e exercícios físicos

A pesquisa reforça a necessidade de priorizar a saúde e o bem-estar animal em vez de apenas a estética. Animais mestiços ou de raças menos extremas apresentam melhor qualidade de vida.

Como os pesquisadores conduziram o estudo

O estudo analisou 1.810 crânios de cães, gatos e espécies selvagens de Canidae e Felidae. Usando modelos tridimensionais, a equipe comparou estruturas cranianas entre raças e espécies.

Os pesquisadores mostraram que a seleção humana pode gerar mudanças notáveis em poucas gerações, criando uma aparência “de bebê eterno” que agrada aos olhos, mas prejudica a saúde dos animais.

Caminhos futuros

A investigação genética de traços braquicefálicos promete:

  • Identificar genes que regulam o desenvolvimento craniano
  • Auxiliar em escolhas de reprodução mais responsáveis
  • Melhorar saúde e bem-estar de cães e gatos de raça

Para quem deseja um animal de estimação saudável, a recomendação é adotar animais mestiços ou raças com conformação craniana equilibrada, evitando os extremos braquicefálicos.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.