Ambiente que imita Marte alterou funções importantes de vermes microscópicos

Vermes microscópicos foram estudados em condições semelhantes às de Marte. (Imagem: Getty Images)

A possibilidade de encontrar vida em Marte desperta curiosidade há décadas. Entretanto, antes mesmo de pensar em organismos extraterrestres, cientistas precisam responder a uma questão importante: como os seres vivos da Terra reagiriam a um ambiente com características semelhantes às do planeta vermelho durante várias gerações?

Um experimento com vermes microscópicos trouxe resultados interessantes. Após seis gerações criados em condições que simulavam aspectos do ambiente marciano, os animais apresentaram alterações em determinados comportamentos, incluindo dificuldades relacionadas à natação e à capacidade de identificar estímulos químicos.

O mais curioso é que essas mudanças não apareceram todas ao mesmo tempo. Enquanto uma alteração foi observada nas primeiras gerações avaliadas, outra se tornou progressivamente mais evidente com o passar das gerações.

Os resultados ajudam a compreender alguns dos desafios biológicos que poderiam surgir durante missões espaciais prolongadas.

Vermes microscópicos foram submetidos a condições semelhantes às de Marte

Para investigar os efeitos de um ambiente extraterrestre sobre organismos terrestres, pesquisadores utilizaram o Caenorhabditis elegans, uma espécie de verme microscópico bastante estudada em pesquisas científicas.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Apesar do tamanho reduzido, esse organismo é um modelo importante para investigar processos biológicos, especialmente aqueles relacionados ao sistema nervoso, funcionamento muscular, desenvolvimento e comportamento.

O experimento reproduziu duas características ambientais relevantes de Marte:

  • Gravidade reduzida: semelhante à gravidade encontrada no planeta vermelho.
  • Campo magnético enfraquecido: condições que representam o magnetismo muito menos intenso de Marte em comparação com o ambiente terrestre.

Os vermes foram mantidos continuamente nessas condições durante seis gerações, permitindo observar não apenas as respostas dos indivíduos expostos inicialmente, mas também possíveis alterações que surgissem ao longo da reprodução.

Os pesquisadores avaliaram diferentes características, incluindo formato corporal, movimentação pelo solo, natação e quimiotaxia, capacidade de identificar e se deslocar em direção ou para longe de determinadas substâncias químicas.

Duas alterações comportamentais chamaram a atenção

Infográfico: impactos específicos na natação e quimiotaxia de vermes. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Um dos resultados mais interessantes foi a diferença na maneira como os comportamentos dos vermes responderam à exposição prolongada.

A frequência de natação diminuiu já nas primeiras gerações avaliadas. Entretanto, essa alteração não apresentou piora progressiva nas gerações seguintes.

A situação foi diferente na quimiotaxia. Inicialmente, os vermes mantiveram essa capacidade relativamente preservada. Contudo, com o passar das gerações, os pesquisadores identificaram uma redução progressiva na resposta aos estímulos químicos.

Essa diferença sugere que os dois comportamentos podem ser afetados por mecanismos biológicos distintos.

Outro detalhe importante é que os animais continuaram vivos e conseguiram se reproduzir durante todo o experimento. Além disso, características como a morfologia corporal e a movimentação pelo solo permaneceram praticamente inalteradas.

Portanto, as condições experimentais não provocaram uma transformação geral no organismo. Os efeitos foram mais específicos, atingindo determinadas funções comportamentais.

Alterações não apareceram em todas as gerações da mesma maneira

O tempo de exposição foi um dos aspectos mais importantes da pesquisa.

Se os cientistas tivessem observado apenas uma geração, provavelmente não teriam identificado a redução progressiva da quimiotaxia. Da mesma forma, analisar somente características físicas poderia levar à conclusão equivocada de que os vermes não sofreram alterações relevantes.

Os pesquisadores também realizaram experimentos de controle, mantendo os animais por seis gerações no mesmo equipamento, mas sem a ativação das condições experimentais.

Nesse grupo, os déficits comportamentais observados não foram reproduzidos.

Entretanto, existe uma limitação importante: gravidade e campo magnético foram modificados simultaneamente. Por isso, não é possível determinar qual desses fatores provocou as alterações ou se os efeitos resultaram da combinação entre eles.

Leia mais:

Estudo traz pistas sobre os desafios biológicos de viver em Marte

A pesquisa foi publicada em 1º de novembro de 2026, na revista científica Scientific Reports. O estudo tem como autor principal A. Akinosho e recebeu o título Behavioral deficits in Caenorhabditis elegans reared for six generations under Mars-analog gravity and hypomagnetic fields.

Os resultados mostram que a exposição prolongada a condições semelhantes às de Marte pode modificar determinados comportamentos de organismos terrestres, mesmo quando sua estrutura corporal permanece preservada.

É importante destacar que o experimento não demonstra que seres humanos apresentariam as mesmas alterações. Os vermes possuem características biológicas muito diferentes das nossas, e as condições simuladas não reproduzem todos os fatores ambientais de Marte.

Ainda assim, pesquisas desse tipo ajudam a identificar possíveis desafios para a exploração espacial, especialmente em missões de longa duração.

Compreender como organismos respondem a ambientes com gravidade reduzida e magnetismo enfraquecido será importante para avaliar os riscos de permanências prolongadas fora da Terra.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes