Uma experiência pode parecer comum no momento em que acontece, mas permanecer na memória por anos. Outras, mesmo recentes, desaparecem rapidamente. Essa diferença não depende apenas da importância do acontecimento: também envolve mecanismos cerebrais que determinam quais informações serão armazenadas.
Um estudo identificou um possível sinal dessa seleção dentro da amígdala cerebral, região conhecida principalmente por sua participação no processamento das emoções.
Os pesquisadores observaram que determinados neurônios dessa estrutura apresentavam maior atividade quando os participantes conseguiam lembrar posteriormente de uma imagem apresentada durante o experimento. A descoberta oferece novas pistas sobre como o cérebro decide quais experiências têm maior probabilidade de permanecer na memória.
A amígdala participa de um processo que vai além das emoções
Localizada profundamente no cérebro, a amígdala é frequentemente associada ao medo, à ansiedade e ao processamento de estímulos emocionalmente importantes. Entretanto, suas funções não se limitam às emoções.
Essa estrutura também participa de processos relacionados à formação e à consolidação das memórias, trabalhando em conjunto com outras regiões cerebrais, especialmente o hipocampo.
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Entrar no Canal do WhatsAppO hipocampo tem papel fundamental na formação da chamada memória episódica, responsável por registrar acontecimentos vividos, incluindo informações sobre o que aconteceu, onde e em quais circunstâncias.
Já a amígdala pode contribuir para selecionar e modular quais informações terão maior probabilidade de serem armazenadas. O novo estudo investigou mais detalhadamente essa participação por meio da observação da atividade de neurônios individuais em seres humanos.
Atividade de neurônios indicou quais imagens seriam lembradas
A pesquisa foi conduzida por Jiyang Xiao, autor principal do trabalho, em colaboração com outros pesquisadores. O artigo foi publicado em 27 de outubro de 2026, na revista Nature Neuroscience.
Para investigar a formação das memórias, os cientistas acompanharam a atividade de neurônios individuais enquanto os participantes observavam imagens inéditas. Posteriormente, eles foram submetidos a testes para verificar quais estímulos conseguiam reconhecer e com qual nível de confiança.
Os resultados mostraram que neurônios da amígdala especializados em determinadas categorias de estímulos apresentavam maior atividade durante a observação das imagens que seriam lembradas posteriormente.
Um aspecto importante foi a especificidade dessa resposta. O aumento da atividade não acontecia indistintamente diante de qualquer imagem, mas principalmente quando o estímulo correspondia à categoria preferencial daquele neurônio.
Isso significa que o padrão de funcionamento das células nervosas ofereceu informações sobre a probabilidade de uma experiência ser registrada na memória episódica.
A memória não depende apenas da intensidade de uma experiência
Outro resultado importante foi que essa atividade neuronal não parecia depender de a imagem provocar uma emoção positiva ou negativa, nem do nível de ativação despertado pelo estímulo.
Em outras palavras, a formação de uma memória não estava restrita a experiências emocionalmente intensas. O padrão observado estava relacionado principalmente à correspondência entre o estímulo apresentado e a categoria à qual cada neurônio respondia preferencialmente.
Os pesquisadores também identificaram diferenças entre as regiões cerebrais analisadas. Na amígdala, o sinal associado à lembrança apareceu mais cedo e com maior intensidade do que no hipocampo.
Além disso, durante a formação bem-sucedida das memórias, houve maior sincronização entre a atividade dos neurônios da amígdala e os sinais elétricos registrados no hipocampo.
Essa coordenação entre duas regiões cerebrais sugere que a capacidade de armazenar uma experiência envolve não apenas a atividade de células individuais, mas também a comunicação entre diferentes estruturas responsáveis pela memória.
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Os resultados ajudam a compreender melhor os mecanismos envolvidos na memória episódica, especialmente a etapa inicial em que o cérebro processa uma informação e a transforma em uma lembrança que poderá ser recuperada posteriormente.
Uma das possibilidades levantadas pelos pesquisadores é que determinadas células da amígdala direita possam representar alvos de investigação para futuras intervenções relacionadas a distúrbios que comprometem a memória.
No entanto, é importante ter cautela: o trabalho identificou padrões de atividade neuronal associados à formação de lembranças, mas não demonstrou que estimular essas células seja capaz de recuperar memórias perdidas ou tratar doenças neurológicas.
Ainda serão necessários outros estudos para entender como esses mecanismos se comportam em diferentes condições clínicas e se podem ser utilizados em estratégias terapêuticas.
