DNA teste de paternidade: como funciona e como o exame confirma a relação biológica

Tubo de coleta com amostra sanguínea para a realização de teste de DNA (Imagem: Getty images)

O DNA teste de paternidade é um exame genético utilizado para investigar se existe compatibilidade biológica entre um suposto pai e uma criança. Para isso, o teste compara regiões específicas do DNA dos indivíduos analisados e verifica se o perfil genético da criança é compatível com a herança recebida de seus pais biológicos.

O método é baseado em um princípio simples da genética: metade do DNA nuclear de uma pessoa é herdada da mãe e a outra metade é herdada do pai biológico. Portanto, ao analisar determinados marcadores genéticos, os pesquisadores conseguem avaliar matematicamente a probabilidade de um indivíduo ser o pai biológico da criança.

Como funciona o DNA teste de paternidade?

O exame começa com a coleta de material biológico. Em testes de rotina, uma das fontes mais utilizadas é a saliva ou células presentes na parte interna da bochecha, obtidas por meio de um swab bucal. O material contém células humanas e, consequentemente, DNA.

No laboratório, o DNA é extraído dessas células e passa por etapas de análise molecular. Atualmente, uma das principais estratégias utilizadas em testes de parentesco envolve a investigação de STRs, sigla em inglês para Short Tandem Repeats, ou repetições curtas em tandem.

Os STRs são pequenas sequências de DNA que se repetem em determinados pontos do genoma. O número dessas repetições varia entre as pessoas, tornando esses marcadores extremamente úteis para identificar indivíduos e investigar relações familiares.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

O que o teste compara?

No DNA teste de paternidade, o laboratório analisa diversos marcadores genéticos da criança, da mãe e do suposto pai.

A criança possui duas cópias de cada cromossomo autossômico, uma herdada da mãe e outra do pai. Assim, em cada marcador analisado, uma das variantes observadas na criança deve ser compatível com a mãe, enquanto a outra deve ser compatível com o pai biológico.

Quando a mãe também participa do exame, sua informação genética ajuda a identificar quais variantes presentes na criança podem ter sido herdadas dela. O laboratório então avalia se as variantes restantes são compatíveis com o perfil do suposto pai.

Quanto maior o número de marcadores analisados e quanto mais informativos eles forem, maior tende a ser o poder estatístico da análise.

O que são os marcadores STR?

Os STRs são regiões do DNA formadas por pequenas sequências repetidas várias vezes. Por exemplo, determinado marcador pode apresentar uma sequência repetida 8 vezes em uma pessoa e 12 vezes em outra. Essas diferenças são chamadas de alelos e podem ser utilizadas na identificação genética.

Como existem muitos STRs distribuídos pelo genoma humano e suas frequências variam na população, a combinação observada em vários marcadores pode ser extremamente informativa.

Uma revisão publicada em 26 de fevereiro de 2026 na revista científica Genes, de autoria principal de Irena Zupanič Pajnič, destacou que os STRs autossômicos continuam sendo um dos principais pilares da genética forense moderna, incluindo aplicações em identificação individual e investigação de parentesco.

Como o laboratório determina a paternidade?

Coleta de amostra de células bucais para teste de DNA usando swab (Imagem: Getty images)

O resultado não depende simplesmente de contar quantos marcadores são iguais entre pai e filho. A análise utiliza modelos estatísticos para calcular a força da evidência genética.

Um dos valores utilizados é o Índice de Paternidade (PI). Ele representa a razão entre a probabilidade de observar determinado resultado genético caso o homem analisado seja o pai biológico e a probabilidade de observar o mesmo resultado caso ele seja um homem aleatório da população.

Os índices obtidos nos diferentes marcadores podem ser combinados em um Índice de Paternidade Combinado (CPI).

A partir desses cálculos, o laboratório pode estimar uma probabilidade de paternidade. Por isso, o resultado de um exame não deve ser interpretado apenas pela quantidade de coincidências encontradas, mas pela análise estatística conjunta dos marcadores.

O DNA teste de paternidade pode dar resultado de exclusão?

Sim. Se determinados marcadores genéticos da criança não puderem ser explicados pela herança materna e forem incompatíveis com o perfil do suposto pai, a hipótese de paternidade pode ser excluída.

Entretanto, uma incompatibilidade isolada nem sempre significa automaticamente que o homem não seja o pai. Mutações podem ocorrer nos marcadores STR, modificando ocasionalmente o número de repetições transmitido de um progenitor para um filho.

Por isso, resultados aparentemente incompatíveis precisam ser avaliados no contexto de todos os marcadores analisados.

O que um estudo de 2026 revelou sobre testes de paternidade?

Um estudo publicado em 19 de maio de 2026 na revista científica Scientific Reports, tendo Nana Wang como primeira autora, analisou um caso particularmente complexo de investigação de paternidade.

Inicialmente, um teste convencional com 23 STRs autossômicos apresentou três inconsistências entre o suposto pai e a criança. Em uma interpretação superficial, essas diferenças poderiam levar à exclusão da paternidade.

Os pesquisadores ampliaram a análise utilizando 48 STRs autossômicos e 17 STRs do cromossomo Y. Posteriormente, utilizaram sequenciamento paralelo massivo, examinando diferentes conjuntos de STRs, SNPs e DNA mitocondrial.

A investigação mostrou que as três inconsistências observadas eram compatíveis com mutações paternas, e não necessariamente com ausência de vínculo biológico. A análise ampliada forneceu forte suporte estatístico para a hipótese de paternidade.

O caso demonstra por que a genética forense precisa considerar a possibilidade de mutações e por que situações complexas podem exigir marcadores adicionais.

Existem outros tipos de marcadores genéticos?

Sim. Embora os STRs sejam amplamente utilizados, outras regiões do DNA também podem fornecer informações importantes.

Os SNPs, por exemplo, são variações de uma única base do DNA. Eles apresentam características diferentes dos STRs e podem ser especialmente úteis quando o material genético está degradado.

O DNA mitocondrial também pode contribuir para determinadas investigações de parentesco, principalmente em análises envolvendo linhagens maternas.

Já os STRs do cromossomo Y podem ser utilizados para investigar linhagens paternas, pois o cromossomo Y é transmitido principalmente de pai para filho homem.

Um trabalho publicado em outubro de 2026 na revista Forensic Science International, liderado por Mingkun Xie, desenvolveu e validou um painel com 25 SNPs trialélicos de amplicons curtos para análise de parentesco em amostras de DNA altamente degradadas. Em 91 trios analisados, o método apresentou concordância de 100% com os resultados baseados em STRs.

Esse tipo de desenvolvimento é importante porque amostras de DNA nem sempre estão em condições ideais para análise.

O teste de paternidade é 100% certeiro?

É importante fazer uma distinção. O exame fornece uma evidência genética extremamente forte, mas o resultado é apresentado por meio de cálculos probabilísticos. A força dessa evidência depende da quantidade e qualidade dos marcadores analisados, das informações disponíveis e dos métodos estatísticos utilizados.

Quando os perfis são incompatíveis em quantidade suficiente, a paternidade pode ser excluída. Quando existe compatibilidade, o laboratório calcula a probabilidade estatística correspondente.

Por isso, expressões como “DNA igual” ou “DNA totalmente igual” não descrevem corretamente como o teste funciona. O objetivo é avaliar compatibilidade genética e força estatística da hipótese de parentesco.

Por que a mãe pode participar do teste?

A presença da mãe pode tornar a análise mais informativa. Isso ocorre porque o perfil genético da criança pode ser dividido, em cada marcador, entre a contribuição materna e a contribuição paterna. Ao conhecer o perfil da mãe, o laboratório consegue identificar com maior clareza quais variantes da criança precisam ser explicadas pelo pai.

Ainda assim, existem situações em que o exame pode ser realizado sem a participação materna. Nesses casos, a análise pode exigir maior quantidade de marcadores ou estratégias complementares.

O DNA teste de paternidade pode ser feito com material degradado?

Em determinadas situações, sim, embora a qualidade da amostra influencie diretamente a análise. Calor, umidade, microrganismos e outros fatores podem fragmentar o DNA. Quando isso acontece, alguns métodos tradicionais podem apresentar dificuldades para recuperar informações suficientes. É justamente nesse contexto que novas estratégias.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes