O cansaço extremo pode ter uma origem inesperada em cinco doenças graves

Mulher cansada a esfregar os olhos em frente ao computador no trabalho (Imagem: Getty images)

Sentir cansaço depois de um dia exigente é comum. Entretanto, algumas pessoas convivem com uma exaustão profunda que persiste por meses ou anos, dificulta a concentração e compromete atividades simples do cotidiano. Agora, pesquisadores identificaram possíveis conexões biológicas entre cinco doenças que provocam esse tipo de desgaste, mesmo quando surgem por motivos muito diferentes.

A descoberta envolve a síndrome da fadiga crônica, também chamada de encefalomielite miálgica (ME/CFS), a COVID longa, o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), a artrite reumatoide e a esclerose múltipla. Embora essas condições afetem o organismo de maneiras distintas, elas podem apresentar alterações em redes biológicas semelhantes, relacionadas à imunidade, ao metabolismo e à produção de energia.

O DNA pode esconder conexões que passam despercebidas

A pesquisa foi liderada por Ewan Hunter e publicada em 2026 no Journal of Translational Medicine, em um estudo que investigou possíveis mecanismos compartilhados pelas cinco condições.

Em vez de observar apenas a sequência do DNA, os pesquisadores analisaram sua arquitetura tridimensional. Dentro das células, o material genético se dobra e forma contatos entre regiões que podem estar distantes na sequência linear. Essas interações ajudam a controlar a atividade dos genes e influenciam o funcionamento celular.

Para investigar essas conexões, a equipe utilizou a plataforma EpiSwitch Orion, da Oxford BioDynamics, e combinou dados genômicos já publicados sobre as doenças estudadas. Assim, foi possível procurar padrões comuns sem coletar novas amostras de pacientes para essa análise.

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Um resultado chamou a atenção: as doenças apresentaram pouca sobreposição direta entre os genes associados a cada uma. Porém, quando os pesquisadores observaram como esses genes se relacionavam em redes regulatórias, surgiram conexões mais claras.

Em outras palavras, doenças diferentes podem envolver genes distintos, mas interferir em sistemas biológicos semelhantes.

Imunidade e energia celular entram no centro da investigação

As redes identificadas estavam relacionadas a processos fundamentais para o equilíbrio do organismo, incluindo:

  • Sinalização imunológica e inflamatória, que coordena as respostas de defesa do corpo.
  • Produção de energia pelas mitocôndrias, estruturas celulares responsáveis por grande parte da geração de ATP.
  • Regulação metabólica, que controla como o organismo utiliza e transforma nutrientes.
  • Resposta ao estresse e sinalização neuroendócrina, que participam da adaptação a desafios físicos e psicológicos.

Esses sistemas trabalham de maneira integrada. Por isso, alterações persistentes em sua regulação podem estar relacionadas a sintomas que vão além do cansaço, como dificuldade de concentração, sono irregular e problemas no funcionamento diário.

Uma infecção viral, por exemplo, pode desencadear mudanças prolongadas na atividade imunológica. Já um trauma psicológico pode afetar mecanismos relacionados ao estresse. Apesar das diferenças, essas perturbações talvez acabem interferindo em circuitos biológicos parcialmente compartilhados.

Isso não significa que todas as doenças tenham a mesma causa ou que a fadiga resulte de um único mecanismo. A pesquisa apresenta uma possível explicação para semelhanças clínicas que ainda precisam ser investigadas em maior profundidade.

Um gene pode ajudar a investigar a fadiga persistente

Representação tridimensional da estrutura em dupla hélice do ADN em tom azul (Imagem: Getty images)

Na análise específica da ME/CFS, os pesquisadores identificaram o LAG3 como um candidato para estudos futuros. Esse gene está relacionado à regulação das células T, componentes do sistema imunológico que participam da defesa do organismo.

O LAG3 também está associado a processos estudados no contexto da chamada exaustão de células T, que pode ocorrer após estimulação imunológica prolongada. No entanto, sua identificação nessa análise não comprova que ele provoque a síndrome da fadiga crônica. São necessários novos estudos para determinar seu papel e verificar se essa relação também se aplica a outros grupos de pacientes.

A descoberta pode levar a exames de sangue?

Atualmente, condições como a ME/CFS e a COVID longa são avaliadas principalmente com base nos sintomas, no histórico clínico e na exclusão de outras explicações. A ausência de um teste laboratorial universalmente aceito pode dificultar o diagnóstico e prolongar a investigação.

Ao identificar possíveis assinaturas biológicas compartilhadas, o estudo abre uma linha de pesquisa para desenvolver ferramentas capazes de complementar a avaliação clínica. No futuro, exames de sangue poderão ajudar a detectar padrões associados a essas doenças, desde que sua precisão e utilidade sejam confirmadas em estudos independentes.

Por enquanto, os resultados não representam um teste diagnóstico pronto nem demonstram a existência de um tratamento capaz de atuar em todas essas condições. Eles oferecem, contudo, uma nova maneira de investigar por que doenças diferentes podem provocar uma exaustão tão semelhante.

O próximo passo é confirmar os mecanismos identificados em grupos maiores de pacientes e descobrir quais alterações são causas, consequências ou apenas sinais associados à doença.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes