Açúcar pode piorar o dano dos antibióticos ao intestino, revela estudo

Pesquisa investiga como doces podem agravar o desequilíbrio intestinal. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Os antibióticos são fundamentais para combater infecções bacterianas, mas seu efeito não se limita aos microrganismos responsáveis pela doença. Esses medicamentos também podem atingir bactérias benéficas que vivem no intestino, alterando o equilíbrio da microbiota. Um estudo científico recente identificou outro fator que pode agravar esse impacto: o consumo de alimentos ricos em açúcar durante o tratamento.

A pesquisa encontrou uma associação entre a ingestão de doces e o aumento da disbiose intestinal, uma condição caracterizada por mudanças na composição e no equilíbrio dos microrganismos que habitam o sistema digestivo. Além disso, experimentos com animais indicaram que o açúcar pode favorecer o crescimento de uma bactéria potencialmente perigosa após a exposição aos antibióticos.

Os resultados chamam a atenção para a influência da alimentação em um período no qual o organismo pode estar mais vulnerável a desequilíbrios microbianos.

Açúcar e antibióticos podem criar um ambiente favorável a bactérias indesejadas

O intestino abriga uma comunidade complexa de bactérias que participa de funções importantes, como o aproveitamento de nutrientes, a manutenção da barreira intestinal e a regulação do sistema imunológico.

Durante um tratamento com antibióticos, parte dessa comunidade pode ser afetada. Como consequência, algumas espécies benéficas diminuem, enquanto outras encontram condições para se multiplicar com maior facilidade.

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Nesse cenário, os pesquisadores observaram que o consumo de doces e açúcares durante a exposição aos antibióticos estava associado a alterações mais acentuadas na microbiota. Entre os sinais identificados estavam a redução da diversidade bacteriana e a expansão de Enterococcus, um gênero de bactérias que inclui espécies capazes de provocar infecções.

A diversidade microbiana é importante porque diferentes grupos de microrganismos desempenham funções complementares. Quando essa variedade diminui, o ecossistema intestinal pode perder parte de sua capacidade de resistir à proliferação de organismos potencialmente prejudiciais.

Isso não significa que comer um doce durante o tratamento provocará necessariamente uma infecção. O achado aponta para uma possível influência da dieta sobre a intensidade das alterações intestinais associadas aos medicamentos.

Experimentos com camundongos revelaram um efeito importante

Estudo analisa o impacto do açúcar no microbioma durante tratamento. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Para investigar essa relação, a equipe também realizou experimentos com camundongos. Os resultados mostraram que a suplementação com sacarose, um tipo de açúcar presente no açúcar de mesa, aumentou a expansão de Enterococcus provocada pelos antibióticos e prolongou esse crescimento.

Esse resultado acrescenta uma informação importante à análise, pois indica que a relação observada em pacientes também pode ser investigada experimentalmente.

Entretanto, os resultados obtidos em animais não comprovam que o mesmo efeito ocorrerá com a mesma intensidade em seres humanos. Além disso, o estudo não estabelece uma quantidade específica de açúcar que seja segura ou prejudicial durante o tratamento.

A pesquisa também não demonstra que o açúcar anule a ação dos antibióticos contra a infecção original. O foco está nas alterações do microbioma intestinal e nas condições que podem favorecer a multiplicação de determinadas bactérias.

Pesquisa acompanhou milhares de refeições de pacientes hospitalizados

O trabalho foi publicado em 30 de setembro de 2026 na revista científica Nature, com Anqi Dai como primeira autora. Os pesquisadores analisaram registros de 9.419 refeições consumidas por 173 pacientes hospitalizados para transplante de células hematopoiéticas, além de acompanhar mudanças na microbiota intestinal.

A análise longitudinal de amostras de 158 pacientes permitiu relacionar padrões alimentares às alterações microbianas ao longo do tempo, incluindo períodos de exposição a antibióticos.

Apesar da dimensão dos dados, os participantes pertenciam a um grupo clínico específico, que pode apresentar vulnerabilidade elevada a infecções e alterações intestinais. Por isso, são necessários estudos com outras populações para verificar até que ponto os resultados se aplicam a pessoas que utilizam antibióticos em situações mais comuns.

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Como cuidar da alimentação durante o tratamento

Os resultados oferecem um motivo adicional para evitar o consumo excessivo de açúcar, especialmente durante períodos de maior vulnerabilidade. Ainda assim, não justificam dietas restritivas nem a exclusão absoluta de todos os alimentos doces com base apenas nessa pesquisa.

Algumas medidas práticas podem ajudar a manter uma alimentação equilibrada:

  • Priorize refeições variadas, com legumes, verduras, frutas e fontes adequadas de proteínas.
  • Evite o excesso de doces e bebidas açucaradas, principalmente quando fazem parte da rotina diária.
  • Siga a prescrição do antibiótico, respeitando os horários e a duração indicados pelo profissional de saúde.
  • Não suspenda nem altere o medicamento por conta própria para tentar proteger a microbiota.

A tolerância alimentar e as necessidades nutricionais variam conforme a doença, o medicamento e as condições de cada paciente. Em pessoas hospitalizadas ou imunocomprometidas, mudanças na dieta devem seguir as orientações da equipe responsável.

No conjunto, o estudo sugere que a alimentação pode influenciar a maneira como a microbiota intestinal responde aos antibióticos. Embora ainda sejam necessárias novas pesquisas para estabelecer recomendações específicas, moderar o consumo de açúcar é uma medida prudente para a saúde geral, sem substituir os cuidados médicos durante o tratamento.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn