Estar acima do peso não impede a desnutrição, alerta estudo

Estar acima do peso não significa ter todos os nutrientes necessários. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

O número indicado na balança nem sempre revela como está a saúde do organismo. Uma pessoa pode apresentar excesso de peso e, ao mesmo tempo, não consumir ou aproveitar adequadamente os nutrientes necessários para manter músculos, ossos e outras funções vitais. Essa combinação merece atenção especial com o envelhecimento, quando alterações na composição corporal podem esconder problemas nutricionais importantes.

Um estudo publicado em 8 de outubro de 2026, na revista científica Scientific Reports, investigou a relação entre obesidade, risco de desnutrição e desempenho físico em adultos com 55 anos ou mais em Camarões. Os resultados mostram por que estar acima do peso não é suficiente para descartar deficiências nutricionais, especialmente entre pessoas mais velhas.

A pesquisa foi conduzida por Salvatore Metanmo, primeiro autor do trabalho, e colaboradores. Embora os resultados não representem automaticamente toda a população idosa, eles chamam a atenção para a necessidade de avaliar a saúde de maneira mais ampla do que apenas pelo peso corporal.

O excesso de peso pode esconder um problema nutricional

Obesidade e desnutrição podem coexistir na mesma pessoa. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

A obesidade é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, enquanto a desnutrição envolve um desequilíbrio entre as necessidades nutricionais e a quantidade de energia ou nutrientes disponíveis para o organismo.

Embora pareçam condições opostas, obesidade e desnutrição podem coexistir na mesma pessoa. Isso acontece, por exemplo, quando a alimentação fornece muitas calorias, mas pouca proteína, vitaminas e minerais essenciais.

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Além disso, o envelhecimento pode favorecer a perda de massa muscular, mesmo quando o peso permanece elevado. Essa combinação pode comprometer a força, a mobilidade e a capacidade de realizar atividades cotidianas.

Por isso, o índice de massa corporal (IMC), calculado com base no peso e na altura, não deve ser utilizado isoladamente para determinar se uma pessoa está bem nutrida. Uma avaliação adequada também considera a alimentação, a composição corporal, a perda involuntária de peso e a capacidade funcional.

Mais de um terço dos participantes tinha obesidade

Para investigar essa relação, os pesquisadores avaliaram 403 adultos com 55 anos ou mais, com idade mediana de 67 anos. A equipe analisou o estado nutricional e a capacidade física dos participantes por meio de instrumentos específicos.

Os resultados indicaram que 36,2% dos participantes apresentavam obesidade, uma proporção expressiva entre as pessoas avaliadas. O estudo também identificou uma associação entre obesidade, risco nutricional e desempenho físico.

Entretanto, existe uma ressalva importante: os pesquisadores observaram poucos casos de risco de desnutrição na análise dessa relação. Por isso, essa parte dos resultados precisa ser interpretada com cautela, sem concluir que a obesidade necessariamente provoca desnutrição.

Outro ponto relevante foi a avaliação da capacidade física. Os participantes realizaram testes que permitiram analisar aspectos como equilíbrio, velocidade de caminhada e habilidade para levantar de uma cadeira.

A perda de força merece atenção com o envelhecimento

A redução da capacidade física pode dificultar tarefas simples, como subir escadas, caminhar por distâncias maiores ou carregar compras. Quando associada à perda de massa muscular e a uma alimentação inadequada, ela pode comprometer a autonomia.

Além disso, o excesso de gordura corporal não garante que o organismo tenha proteínas e micronutrientes suficientes para preservar os músculos e manter suas funções.

Por esse motivo, observar apenas o peso pode atrasar a identificação de problemas nutricionais. Uma avaliação profissional pode considerar diferentes sinais, entre eles:

  • Perda de força: dificuldade crescente para realizar atividades habituais.
  • Mudanças no peso: emagrecimento involuntário, mesmo em pessoas que continuam acima do peso.
  • Alimentação insuficiente: refeições pouco variadas ou consumo reduzido de proteínas e outros nutrientes.
  • Dificuldade de mobilidade: alterações na caminhada, no equilíbrio ou na capacidade de se levantar.

Esses sinais não confirmam desnutrição isoladamente, mas justificam uma avaliação individualizada.

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O que a pesquisa muda na avaliação da saúde

Publicado na revista Scientific Reports em 8 de outubro de 2026, o estudo de Salvatore Metanmo e colaboradores destaca uma questão importante para o cuidado de pessoas mais velhas: peso corporal e qualidade nutricional são medidas diferentes.

Como a pesquisa foi transversal, ela identificou associações em um determinado período, mas não permite estabelecer uma relação de causa e efeito. Além disso, os participantes pertenciam a uma população específica de Camarões, o que limita a generalização dos resultados.

Ainda assim, a investigação contribui para ampliar a compreensão dos desafios nutricionais do envelhecimento. Na prática, o acompanhamento da saúde deve considerar não apenas o IMC, mas também a alimentação, a massa muscular, a força e a autonomia.

Estar acima do peso não significa necessariamente estar bem nutrido. Identificar precocemente possíveis deficiências nutricionais pode ajudar a orientar cuidados mais adequados e preservar a qualidade de vida ao longo dos anos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn