Uma queda aparentemente comum levou um cão de 10 anos a uma condição neurológica grave. O caso, porém, ganhou um desfecho incomum graças à combinação entre cirurgia veterinária, reconstrução tridimensional e fabricação personalizada em titânio.
O paciente era um Pomerânia macho castrado, com apenas 2,9 kg, que apresentou dificuldade para caminhar, alterações na posição da cabeça e dificuldade para engolir depois do acidente. Exames de imagem revelaram uma fratura em uma região extremamente delicada, próxima ao tronco encefálico.
Uma fratura em uma das regiões mais delicadas
A lesão atingiu o côndilo occipital, uma estrutura localizada na base do crânio que participa da conexão entre a cabeça e a primeira vértebra cervical.
A tomografia computadorizada mostrou que um fragmento ósseo havia se deslocado em direção ao forame magno, abertura por onde passam estruturas importantes entre o cérebro e a medula espinhal. Já a ressonância magnética indicou compressão da medula oblonga e uma lesão compatível com infarto cerebelar.
Retirar o fragmento poderia provocar danos adicionais às estruturas nervosas e vasculares próximas. Por isso, a equipe optou por deixá-lo no local e concentrar o tratamento na estabilização da região craniocervical.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppO implante foi desenhado a partir do próprio cão
O diferencial do procedimento estava na maneira como o implante foi desenvolvido. A equipe utilizou imagens da tomografia para criar uma reconstrução tridimensional da anatomia do paciente.
A partir desse modelo, foi projetada uma placa de titânio capaz de acompanhar o formato específico dos ossos do crânio e das vértebras cervicais.
O implante foi produzido por fresagem CNC, um processo de fabricação controlado por computador que remove material de um bloco de titânio até alcançar a geometria planejada.
Antes da cirurgia, os profissionais também produziram um modelo de resina da região para simular o procedimento e testar o posicionamento do implante. O dispositivo metálico, entretanto, não foi impresso em 3D. Ele foi fabricado por usinagem.
A pesquisa que mostra como a tecnologia pode ajudar na veterinária
O relato foi publicado na Frontiers in Veterinary Science em 21 de setembro de 2026, com Narae Jeong como autora principal.
Segundo o estudo, essa foi a primeira descrição revisada por pares de uma estabilização cirúrgica de fratura do côndilo occipital em um cão utilizando um implante de titânio fresado por CNC específico para o paciente.
Após a cirurgia, uma tomografia confirmou que o implante estava adequadamente posicionado, sem invasão do canal vertebral ou lesão neural. O animal recebeu alta no quinto dia após o procedimento.
O acompanhamento também apresentou resultados positivos. Duas semanas depois, o cão já conseguia caminhar, embora ainda apresentasse uma alteração leve na marcha. Com o passar dos meses, sua condição continuou melhorando.
Quatro meses após a cirurgia, apresentava uma marcha próxima do normal e conseguia realizar atividades cotidianas, incluindo caminhar e correr. No acompanhamento de um ano, o implante e os parafusos permaneciam estáveis, sem sinais radiográficos de deslocamento ou quebra.
Veja também:
Uma solução criada para uma anatomia única
O caso chama atenção porque cada animal possui características anatômicas próprias, especialmente quando se trata de estruturas pequenas e complexas.
Nesse contexto, a possibilidade de transformar imagens médicas em um modelo tridimensional permite projetar dispositivos que se ajustam de maneira muito mais específica ao paciente.
Ainda assim, trata-se de um relato de caso, e não de uma evidência suficiente para estabelecer esse procedimento como tratamento padrão para cães com fraturas semelhantes. A própria literatura veterinária possui poucos casos desse tipo de lesão.
O principal destaque do trabalho está, portanto, na combinação entre diagnóstico por imagem, planejamento digital e fabricação personalizada, mostrando como ferramentas de engenharia podem ampliar as possibilidades da cirurgia veterinária em situações extremamente complexas.
Para o Fala Ciência, o caso também mostra como a união entre ciência, tecnologia e medicina veterinária pode abrir novas possibilidades para o tratamento de animais em situações que antes apresentavam poucas alternativas.
