Ver um cachorro movimentando as patas enquanto dorme ou um gato mexendo os bigodes e emitindo pequenos sons desperta uma dúvida quase inevitável: o que está acontecendo dentro daquele cérebro? A resposta científica é fascinante, mas também exige cuidado. Cães e gatos apresentam sono REM, uma fase marcada por intensa atividade cerebral e movimentos rápidos dos olhos, mas isso não significa que pesquisadores já consigam assistir aos sonhos desses animais.
O que a ciência consegue fazer é observar os padrões elétricos do cérebro, identificar diferentes estágios do sono e comparar essas informações com o comportamento apresentado pelo animal.
O cérebro não fica simplesmente “desligado”
Durante o sono, o cérebro passa por diferentes estados. No sono REM, a atividade neural se torna particularmente interessante porque se aproxima, em alguns aspectos, daquela observada durante a vigília.
É justamente nessa fase que podem surgir comportamentos como:
- pequenos movimentos das patas;
- contrações dos músculos da face;
- alterações nos olhos;
- movimentação das orelhas ou bigodes;
- vocalizações discretas.
Esses sinais, porém, não permitem identificar exatamente o conteúdo de um sonho. Um cachorro que movimenta as patas pode estar tendo uma experiência relacionada a uma atividade recente, mas também é possível que o movimento esteja associado à própria fisiologia do sono.
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Entrar no Canal do WhatsAppPor isso, dizer que um cão está sonhando especificamente com seu tutor ainda seria uma conclusão além do que os experimentos conseguem demonstrar.
Um novo olhar para a atividade cerebral dos cães
Um estudo publicado em 15 de agosto de 2026 na revista Neuroinformatics, liderado por Ivaylo Borislavov Iotchev, analisou a identificação automática de padrões de atividade elétrica durante o sono de cães por meio de eletroencefalografia, ou EEG.
O trabalho avaliou especificamente os chamados fusos do sono, oscilações breves observadas no EEG e relacionadas à organização da atividade cerebral durante o repouso. Os pesquisadores verificaram que determinados padrões detectados automaticamente em cães apresentam características compatíveis com os fusos identificados em humanos.
Isso é importante porque mostra como ferramentas cada vez mais precisas conseguem transformar a atividade cerebral de um animal adormecido em dados mensuráveis.
Entretanto, há uma diferença fundamental: esse estudo não decodificou sonhos nem demonstrou que cães sonham com seus donos. Ele aprimorou a capacidade de analisar sinais cerebrais durante o sono.
A memória pode ser a peça que falta
Existe uma hipótese biologicamente plausível para explicar por que pessoas, lugares e experiências importantes poderiam aparecer nos sonhos dos animais.
Cães e gatos possuem memória, aprendizagem e associações emocionais. Durante o sono, processos relacionados à consolidação de informações podem reorganizar experiências vividas anteriormente.
Assim, é possível imaginar que um cão que passou o dia brincando com seu tutor tenha atividade cerebral relacionada a essas experiências durante o repouso. Porém, possibilidade não é prova.
A ciência ainda não possui uma espécie de “legenda” capaz de transformar ondas cerebrais de um cachorro ou gato em imagens ou histórias.
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A pista mais interessante está justamente no sono
O mais surpreendente talvez seja perceber que o sono dos animais está longe de ser um estado de completa inatividade. O cérebro continua trabalhando, organizando informações e alternando entre diferentes padrões fisiológicos.
Portanto, quando seu cachorro corre dormindo ou seu gato movimenta os bigodes, existe uma explicação neurobiológica para esses comportamentos. Eles podem estar associados ao processamento cerebral que ocorre durante o sono, inclusive no período REM.
Mas a pergunta sobre quem aparece no sonho continua aberta.
Por enquanto, a ciência consegue observar o cérebro, identificar seus ritmos e reconhecer os estágios do sono. O conteúdo da experiência subjetiva permanece inacessível.
E talvez seja justamente essa pequena parte desconhecida que torna tão intrigante imaginar o que passa pela cabeça de um animal enquanto ele dorme tranquilamente ao nosso lado.
