Solar Orbiter encontra ondas invisíveis que podem explicar a força do vento solar 

Solar Orbiter observa o polo norte do Sol em alta resolução. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Uma parte importante da energia que movimenta o Sol pode estar escondida em ondas magnéticas rápidas demais para serem percebidas por instrumentos anteriores. A descoberta foi possível graças à capacidade da sonda Solar Orbiter de registrar imagens com alta velocidade e grande resolução, revelando uma população de ondas que havia passado praticamente despercebida.

A novidade é importante porque essas estruturas podem ajudar a explicar dois dos grandes enigmas da física solar: como a atmosfera externa do Sol permanece extremamente quente e de que maneira o vento solar rápido consegue atingir velocidades de centenas de quilômetros por segundo.

A câmera mais rápida revelou um Sol diferente

Nos polos solares existem os chamados buracos coronais, regiões onde as linhas do campo magnético se estendem para longe da estrela. É justamente nesses locais que surgem estruturas alongadas conhecidas como plumas coronais, que funcionam como caminhos para o plasma e podem estar relacionadas à formação do vento solar.

O problema é que as ondas que percorrem essas estruturas podem ser muito rápidas. Por isso, observações anteriores acabavam registrando apenas parte delas.

O instrumento Extreme Ultraviolet Imager (EUI), instalado na Solar Orbiter, consegue obter imagens em intervalos menores e com resolução espacial superior à de observações anteriores. Quando os pesquisadores compararam os dados com imagens do Solar Dynamics Observatory (SDO), a diferença foi impressionante:

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  • O EUI identificou 2.318 eventos de ondas.
  • O SDO registrou 560 eventos nas observações comparadas.

Isso significa que uma grande quantidade dessas oscilações estava sendo perdida quando as imagens tinham menor velocidade e resolução.

Ondas rápidas carregam uma quantidade surpreendente de energia

Imagens da Solar Orbiter revelam ondas magnéticas nas plumas do Sol. (Imagem: National Science Review)

A análise mostrou que mais de um terço das ondas observadas pela Solar Orbiter apresentava períodos inferiores a 100 segundos. Essa população de alta frequência praticamente desaparecia nas observações menos detalhadas.

Além disso, as ondas identificadas pelo EUI apresentaram velocidade média maior. Os cálculos indicaram que a energia associada a essas oscilações rápidas pode ser 2,6 vezes superior às estimativas obtidas com observações anteriores.

Na prática, isso muda a maneira como os cientistas enxergam a transferência de energia na atmosfera solar. Essas ondas podem transportar energia através do plasma magnetizado, levando parte dela para regiões mais altas da atmosfera.

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Uma pista para o mistério do vento solar

Ainda não existe uma explicação definitiva para a origem dessas ondas. O estudo considera possibilidades como reconexão magnética, movimentos associados a espículas solares e processos de cascata turbulenta, nos quais ondas maiores podem alimentar oscilações menores e mais rápidas.

Quando essas ondas avançam pela atmosfera solar, parte de sua energia pode ser transferida para o plasma. Esse processo poderia contribuir para o aquecimento da coroa solar e também para a aceleração das partículas que formam o vento solar.

Entretanto, há uma ressalva importante: os pesquisadores calculam que a energia observada ainda é insuficiente, por si só, para explicar toda a aceleração do vento solar. Portanto, as ondas provavelmente representam uma peça do quebra-cabeça, e não a solução completa.

O estudo que encontrou as ondas escondidas

A descoberta foi apresentada por Yuhang Gao e colaboradores no estudo publicado na revista científica National Science Review em 24 de junho de 2026. O trabalho analisou observações da Solar Orbiter/EUI e do SDO/AIA para investigar ondas magnetohidrodinâmicas de alta frequência.

O resultado mostra como velocidade de captura e resolução das imagens podem mudar completamente aquilo que conseguimos enxergar no Sol. Com novas missões dedicadas à observação dos polos solares, os cientistas poderão encontrar ainda mais dessas ondas e determinar quanto de sua energia realmente participa do aquecimento da coroa e da formação do vento solar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes