Quem começa a correr ou aumenta o ritmo do treino costuma conhecer uma sensação bastante incômoda: uma pontada repentina na lateral do abdômen, próxima às costelas, que aparece justamente quando o esforço aumenta. Muitas pessoas acreditam que isso acontece apenas por falta de condicionamento ou por “falta de ar”, mas a explicação é mais complexa.
Essa dor, conhecida cientificamente como dor abdominal transitória relacionada ao exercício (ETAP), envolve uma combinação de fatores mecânicos e fisiológicos. Entre as estruturas que podem participar desse processo está o diafragma, um músculo essencial para a respiração e que trabalha intensamente durante a corrida.
O músculo da respiração que também sente o impacto da corrida
O diafragma separa o tórax do abdômen e participa de cada inspiração e expiração. Durante uma corrida, principalmente em alta intensidade, ele precisa acompanhar o aumento da demanda de oxigênio enquanto o corpo realiza movimentos repetitivos.
Ao mesmo tempo, cada passada provoca pequenas oscilações nos órgãos internos e aumenta a movimentação das estruturas próximas ao abdômen. Essa combinação pode gerar tensão e desconforto na região, resultando naquela conhecida fisgada lateral.
A dor costuma surgir principalmente em situações como:
- Aumento rápido da velocidade da corrida.
- Treinos mais intensos que o habitual.
- Falta de adaptação ao esforço físico.
- Exercícios realizados após refeições volumosas.
Por isso, a sensação nem sempre significa que os pulmões estão “falhando”. Muitas vezes, o corpo está lidando com uma sobrecarga de diferentes estruturas ao mesmo tempo.
A ciência investigou a origem da famosa “dor de lado”
Um dos principais estudos sobre o tema foi publicado na revista Sports Medicine em 2015, liderado pelo pesquisador Darren P. Morton.
O trabalho, intitulado “Exercise-Related Transient Abdominal Pain (ETAP)”, analisou os mecanismos envolvidos nessa dor que aparece durante atividades físicas, especialmente em esportes como corrida.
Os pesquisadores avaliaram diferentes hipóteses para explicar o fenômeno, incluindo a participação do diafragma, a irritação das estruturas que revestem o interior do abdômen e a tensão provocada pelos movimentos repetitivos durante o exercício.
O estudo destacou que a ETAP não possui uma única causa, mas resulta da interação entre fatores físicos e fisiológicos. A localização da dor, a intensidade do exercício e as características individuais influenciam quando ela aparece.
Por que algumas pessoas sentem mais que outras?
A frequência da dor lateral varia bastante entre os praticantes de atividade física. Corredores iniciantes costumam relatar mais episódios, principalmente porque o organismo ainda está se adaptando ao impacto e ao controle respiratório exigido pelo exercício.
Além disso, alguns hábitos podem aumentar a chance do desconforto, como:
- Começar a correr em ritmo muito elevado.
- Respirar de forma curta e acelerada.
- Treinar logo após comer.
- Não fortalecer a musculatura do tronco.
Com a evolução do condicionamento, muitas pessoas percebem uma redução desses episódios.
Como diminuir a chance da dor aparecer?
Algumas medidas simples podem ajudar a evitar ou reduzir a intensidade da “pontada”:
- Aumentar o ritmo gradualmente.
- Respeitar o tempo de adaptação do corpo.
- Evitar refeições grandes antes da corrida.
- Manter uma respiração mais controlada.
- Fortalecer abdômen e músculos estabilizadores.
Quando a dor surge durante o treino, reduzir temporariamente a velocidade, ajustar a respiração e melhorar a postura podem ajudar o desconforto a desaparecer.
Uma pequena fisgada que revela a complexidade do corpo
Na maioria dos casos, a dor na costela durante a corrida é temporária e não representa um problema grave. Porém, ela mostra como diferentes sistemas trabalham juntos durante o exercício.
Respiração, músculos, órgãos internos e movimento precisam atuar em equilíbrio para que o corpo mantenha o desempenho. Aquela simples pontada que aparece no meio da corrida é, na verdade, um sinal de que essa engrenagem biológica está sendo exigida ao máximo.
