A Floresta Amazônica desempenha um dos papéis mais importantes na regulação do clima global. Ao absorver enormes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, ela ajuda a desacelerar o avanço das mudanças climáticas. No entanto, essa função essencial pode estar ameaçada durante episódios intensos de El Niño, segundo uma importante pesquisa científica.
Os resultados indicam que, sob condições de calor extremo e seca prolongada, partes da Amazônia podem deixar de retirar carbono da atmosfera e passar a liberar o carbono acumulado ao longo de décadas. Essa mudança transforma a floresta de aliada no combate ao aquecimento global em um fator que pode acelerar ainda mais o problema.
Quando o calor impede a floresta de capturar carbono
As árvores retiram CO₂ da atmosfera por meio da fotossíntese, utilizando esse carbono para crescer e formar troncos, galhos e folhas. Esse processo faz da Amazônia um gigantesco reservatório natural de carbono, armazenando cerca de 123 bilhões de toneladas.
Entretanto, esse equilíbrio depende de condições ambientais favoráveis. Durante eventos intensos de El Niño, as temperaturas aumentam e a disponibilidade de água diminui significativamente.
Para evitar a perda excessiva de água, as árvores fecham pequenos poros presentes nas folhas, conhecidos como estômatos. Como consequência, a entrada de dióxido de carbono também é reduzida, limitando a fotossíntese. Se a seca persistir, muitas árvores entram em colapso fisiológico e acabam morrendo.
Quando isso acontece, o carbono armazenado em sua madeira retorna gradualmente à atmosfera durante a decomposição, ampliando o efeito do aquecimento global.
Mais de meio milhão de árvores revelaram um cenário preocupante
Para compreender esse fenômeno, pesquisadores acompanharam mais de 500 mil árvores, pertencentes a cerca de 4 mil espécies, distribuídas por florestas tropicais de seis países sul-americanos ao longo de três décadas.
As medições permitiram calcular quanto carbono permanecia armazenado na biomassa das árvores e como esse estoque variava após eventos climáticos extremos.
Os resultados mostraram que as regiões mais secas, principalmente nas bordas da Amazônia, sofreram os maiores impactos. Nessas áreas, um aumento médio de apenas 0,5 °C foi suficiente para provocar perdas mensuráveis de carbono armazenado na vegetação.
As árvores gigantes são as mais vulneráveis
Outro aspecto importante observado pelos pesquisadores foi que as árvores de maior porte apresentaram as maiores taxas de mortalidade durante períodos de El Niño.
Entre os fatores que explicam esse comportamento está a chamada falha hidráulica, fenômeno em que a intensa demanda por água rompe o fluxo contínuo dentro dos vasos condutores das árvores. Sem conseguir transportar água adequadamente, esses indivíduos acabam morrendo com maior frequência.
Como as árvores maiores concentram boa parte do carbono da floresta, sua perda provoca um impacto desproporcional sobre o estoque total de carbono da Amazônia.
Por que o próximo El Niño desperta tanta atenção
Os cientistas alertam que o cenário atual pode ser ainda mais delicado. Os oceanos já apresentam temperaturas elevadas antes mesmo do desenvolvimento completo do novo El Niño, enquanto diversas regiões da Amazônia acumulam anos consecutivos de calor intenso e períodos de seca.
Esse histórico reduz a capacidade de recuperação da floresta entre um evento extremo e outro. Caso novos episódios severos ocorram antes da regeneração da vegetação, existe o risco de perdas ainda maiores de árvores e carbono.
Além disso, esse processo pode criar um ciclo de retroalimentação climática: quanto menos carbono a Amazônia consegue armazenar, maior tende a ser a concentração de CO₂ na atmosfera, favorecendo um aquecimento adicional.
Os resultados foram publicados na revista científica Nature Climate Change, em 2023, no estudo liderado por Tom Pugh. A pesquisa oferece uma das avaliações mais abrangentes já realizadas sobre os efeitos do El Niño na dinâmica do carbono das florestas tropicais sul-americanas e evidencia a importância de preservar a integridade da Amazônia diante do avanço das mudanças climáticas.
