Árvores continuam sugando carbono mesmo depois de parar de crescer, diz estudo 

Carvalhos seguem capturando CO₂ mesmo após parar de crescer, revela estudo sobre florestas. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Quando pensamos em árvores capturando dióxido de carbono, a imagem mais intuitiva é simples: elas fazem fotossíntese, crescem, engrossam o tronco e armazenam esse carbono na madeira. Mas um novo estudo indica que essa conta pode ser bem menos direta do que parece. Pesquisadores descobriram que carvalhos continuam absorvendo CO₂ por meses mesmo depois de encerrar seu crescimento anual, um resultado que coloca em xeque uma das suposições mais usadas para estimar a função das florestas no desafio de enfrentar as mudanças climáticas.

O trabalho foi publicado em 9 de julho de 2026 na revista Science Advances, liderado por Mukund Palat Rao e colegas. A conclusão central é importante: fotossíntese e crescimento não caminham sempre juntos. Em outras palavras, uma árvore pode continuar retirando carbono da atmosfera sem transformar grande parte desse carbono em madeira nova, que é justamente uma das formas mais duradouras de armazenamento de carbono nos ecossistemas florestais.

O que muda na forma de entender o carbono das florestas

As florestas são peças-chave no equilíbrio climático porque funcionam como grandes sumidouros de carbono. Ao realizar fotossíntese, as árvores retiram CO₂ da atmosfera e incorporam esse carbono aos seus tecidos. Parte vai para folhas, raízes, frutos e metabolismo; outra parte é convertida em biomassa lenhosa, onde pode ficar presa por décadas ou até séculos.

O problema é que muitos modelos climáticos partem da ideia de que mais fotossíntese significa automaticamente mais crescimento. Se isso não acontece, o potencial de armazenamento de carbono das florestas pode estar sendo superestimado em alguns cenários.

Segundo o estudo, parte considerável do carbono capturado após o fim do crescimento sazonal não vira madeira. Ele pode ser direcionado para:

  • produção de folhas e raízes;
  • armazenamento temporário como açúcares e amido;
  • manutenção do metabolismo da planta;
  • liberação de compostos no solo, que ajudam na nutrição e na interação com microrganismos.

O experimento que acompanhou carvalhos em diferentes regiões

Para investigar essa desconexão, os cientistas reuniram um conjunto robusto de dados de 137 áreas de carvalhos no leste dos Estados Unidos e na Califórnia. Eles combinaram imagens de satélite, medições horárias de CO₂ nas copas e sensores instalados nos troncos para acompanhar variações finas no crescimento. Também analisaram anéis de crescimento e registros climáticos de 1950 até hoje.

O padrão ficou claro. No leste dos EUA, os carvalhos costumavam crescer principalmente entre maio e julho, mas continuavam fotossintetizando até outubro. Isso significa que cerca de 36% da assimilação anual de carbono acontecia depois que o crescimento já havia parado no fim do verão. Na Califórnia, o calendário sazonal era diferente, mas o comportamento geral se repetia: aproximadamente 26% da absorção anual de carbono ocorreu após o encerramento do crescimento.

Por que a árvore continua capturando carbono, mas para de crescer?

A explicação mais provável envolve a água. O crescimento do tronco depende de boa hidratação e de pressão interna adequada nos tecidos vegetais. Quando o ambiente fica mais quente e seco, essa pressão cai rapidamente, e o crescimento desacelera ou para. Já a fotossíntese pode continuar, ainda que em ritmo reduzido, desde que as folhas sigam funcionando e haja luz suficiente.

Isso cria uma espécie de desencontro fisiológico: a árvore ainda capta carbono, mas não necessariamente o transforma em madeira naquele momento. Em vez disso, ela pode guardar parte desse material para a próxima estação ou usá-lo em outras funções essenciais.

O que isso significa para o clima do futuro

Essa descoberta importa porque o mundo está mais quente, mais rico em CO₂ atmosférico e, em muitas regiões, mais sujeito a extremos de seca e calor. Se árvores continuarem fotossintetizando sem converter boa parte desse carbono em biomassa lenhosa, então a capacidade das florestas de funcionar como “cofres” de carbono pode ser menor do que muitos cenários climáticos projetam.

Além disso, o estudo observou que a separação entre absorção de carbono e crescimento ficou ainda mais marcada em anos de clima muito variável, alternando períodos úmidos e secos. Como essa oscilação tende a aumentar com as mudanças climáticas, o fenômeno pode se tornar mais comum.

No fim das contas, a pesquisa de Mukund Palat Rao, publicada na Science Advances em 9 de julho de 2026, sugere que as árvores guardam um comportamento mais complexo do que imaginávamos. Elas podem continuar retirando carbono da atmosfera mesmo quando já pararam de crescer, e isso muda a maneira como a ciência calcula o verdadeiro poder das florestas no enfrentamento do aquecimento global.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes