“Bloquear” o Sol pode enfraquecer o El Niño, diz estudo 

Estudo sugere que refletir luz solar no Pacífico pode enfraquecer episódios de El Niño. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Em meio ao avanço do aquecimento global, cresce o interesse por estratégias capazes de reduzir eventos climáticos extremos antes que eles causem impactos mais severos. Um novo estudo publicado em 8 de julho de 2026 na revista Science Advances aponta que uma intervenção localizada no Pacífico tropical poderia ajudar a reduzir a força de episódios de El Niño. A proposta envolve uma forma de geoengenharia solar regional e foi investigada por meio de simulações climáticas, não em testes reais.

A pesquisa, liderada por Katherine Ricke, analisou a possibilidade de diminuir a quantidade de radiação solar que alcança a superfície do oceano em áreas estratégicas do Pacífico. A hipótese é que, ao limitar o aquecimento dessas águas, seria possível enfraquecer o mecanismo que favorece o desenvolvimento de eventos intensos de El Niño, fenômeno que altera o clima em várias partes do planeta.

Como o El Niño afeta o mundo

Embora se forme no Pacífico equatorial, o El Niño produz efeitos muito além dessa região. Ele está associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do oceano, principalmente nas porções central e leste do Pacífico, além de mudanças nos ventos e na circulação atmosférica.

Essas alterações modificam a distribuição de calor e umidade na atmosfera e acabam repercutindo em diferentes continentes. Dependendo da intensidade do evento, o resultado pode incluir secas prolongadas, chuvas acima da média, enchentes, prejuízos à agricultura e mudanças no comportamento de tempestades. Por isso, o El Niño é visto como um dos principais moduladores naturais do clima global.

Clarear nuvens para refletir mais luz

A técnica analisada pelos cientistas é conhecida como clareamento de nuvens marinhas. Em linhas gerais, ela consiste em lançar pequenas partículas de água do mar na atmosfera para tornar certas nuvens mais brilhantes e refletivas. Com isso, uma fração maior da luz solar seria devolvida ao espaço, reduzindo a energia absorvida pelo oceano abaixo.

No caso do Pacífico tropical, a ideia seria usar esse efeito para frear o aquecimento da superfície do mar em momentos críticos. Se o oceano aquecer menos, o sistema teria menos “combustível” para alimentar episódios mais fortes de El Niño. Trata-se de uma abordagem bastante específica dentro da geoengenharia solar: em vez de tentar resfriar o planeta inteiro, o foco estaria em uma região chave para a dinâmica climática global.

O que as simulações indicam

Os pesquisadores não realizaram qualquer intervenção no ambiente. O estudo foi baseado em modelos climáticos, inspirados em um episódio real: os grandes incêndios florestais que atingiram a Austrália entre 2019 e 2020. Naquele período, enormes quantidades de partículas foram lançadas na atmosfera, alterando a forma como a radiação solar interagia com partes do Pacífico.

Usando esse tipo de perturbação como referência, os autores simularam cenários em que a incidência de luz solar sobre o Pacífico tropical seria reduzida. Os resultados sugerem que essa diminuição poderia amenizar a intensidade de episódios de El Niño e, em consequência, reduzir parte dos efeitos climáticos associados ao fenômeno.

De forma geral, o trabalho aponta três conclusões principais: reduzir a radiação solar sobre o Pacífico pode limitar o aquecimento da superfície do mar; isso tem potencial para enfraquecer eventos de El Niño em certas condições; e os efeitos concretos dessa estratégia ainda dependem de uma série de variáveis do sistema climático.

Uma ideia científica, não uma solução pronta

Apesar dos resultados promissores, os próprios autores deixam claro que a proposta está longe de ser simples. Intervenções deliberadas no balanço de radiação da Terra levantam dúvidas ambientais, políticas e éticas. O clima é um sistema interligado, e alterações em uma região podem desencadear respostas inesperadas em outras partes do mundo.

Também permanecem perguntas difíceis: quem decidiria quando aplicar uma técnica como essa? Em que área ela seria usada? Por quanto tempo? E quais poderiam ser os efeitos colaterais sobre chuvas, correntes atmosféricas ou ecossistemas marinhos?

Por isso, o estudo deve ser entendido como uma investigação sobre viabilidade científica, e não como um projeto pronto para implementação. Ainda assim, ele mostra como a pressão da crise climática está levando pesquisadores a examinar soluções cada vez mais ousadas para tentar reduzir os impactos do aquecimento global.

No fim, a mensagem mais importante continua sendo a mesma: por mais sofisticadas que sejam as propostas de geoengenharia, elas não substituem a necessidade de cortar emissões de combustíveis fósseis, principal motor do aquecimento do planeta.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes