Vivemos cercados pelo tempo. Ele organiza o dia, marca o envelhecimento, determina a ordem dos acontecimentos e parece tão óbvio quanto a gravidade. Ainda assim, quando a física tenta descrever o Universo em seu nível mais profundo, essa aparente simplicidade desaparece. Em certas abordagens da gravidade quântica, o tempo não surge como um pano de fundo fixo da realidade, mas como algo que pode emergir das interações entre partes de um sistema. Agora, um experimento de laboratório levou essa hipótese para um teste concreto.
Em estudo publicado em 11 de junho de 2026 na revista Physical Review Research, o físico Giovanni Barontini montou um sistema quântico altamente isolado para investigar se o tempo poderia surgir sem depender de um referencial externo. Em vez de observar o cosmos, ele construiu uma espécie de miniuniverso experimental com átomos ultrafrios, capaz de reproduzir, em escala controlada, uma questão central da cosmologia moderna: como o tempo aparece em um universo que não tem nada fora dele?
O enigma aparece quando o Universo não tem “lado de fora”
No cotidiano e na maior parte da física clássica, o tempo é tratado como algo dado. Ele simplesmente passa, enquanto partículas se movem, corpos caem e estrelas nascem. No entanto, esse cenário fica muito menos intuitivo quando o objeto de estudo é o Universo inteiro, visto como um sistema completo e fechado.
Nesse contexto surge o chamado problema do tempo. Algumas formulações da gravidade quântica, entre elas a equação de Wheeler-DeWitt, descrevem o cosmos sem introduzir um relógio externo. Isso levanta uma dificuldade profunda: se o Universo não possui nada além de si mesmo, de onde vem a sensação de que os eventos se sucedem em uma ordem temporal?
Uma resposta proposta por físicos teóricos é o tempo relacional. Nessa interpretação, o tempo não seria uma entidade fundamental, mas um efeito produzido pelas mudanças que ocorrem dentro do próprio sistema. Em vez de existir por si só, ele apareceria nas comparações entre uma parte do universo e outra.
O “miniuniverso” nasceu em um gás quase congelado
Para testar essa ideia, Barontini recorreu a um condensado de Bose-Einstein, um estado da matéria obtido quando átomos são resfriados a temperaturas muito próximas do zero absoluto. Sob essas condições extremas, as partículas perdem parte do comportamento individual e passam a agir de forma coletiva, como se formassem um único objeto quântico.
No experimento, o pesquisador trabalhou com cerca de 24 mil átomos ultrafrios e dividiu o sistema em duas regiões usando uma barreira de luz. Uma dessas metades foi tratada como a parte observável do sistema; a outra ficou fora da análise direta. A pergunta era clara: seria possível ordenar os acontecimentos em uma metade do sistema usando apenas informações geradas dentro do próprio miniuniverso?
Quando a entropia assume o papel de relógio
A estratégia foi acompanhar a troca de entropia entre as duas partes do sistema. Em linhas gerais, a entropia mede como a energia se distribui e o grau de organização de um conjunto físico. Ao monitorar esse fluxo interno, os pesquisadores construíram uma espécie de tempo entrópico, isto é, um marcador temporal baseado nas transformações do próprio sistema, e não no cronômetro do laboratório.
O resultado chamou atenção porque esse tempo interno conseguiu organizar a sequência dos eventos observados no setor visível do miniuniverso. À medida que a nuvem atômica oscilava e trocava entropia com a região não observada, o “relógio” emergente avançava. Em alguns momentos, ele parecia correr mais rápido; em outros, desacelerava. Quando a troca praticamente desaparecia, o tempo interno também deixava de evoluir.
Esse ponto é crucial porque mostra, em ambiente controlado, que um sistema isolado pode gerar sua própria referência temporal a partir das relações entre suas partes.
O que essa descoberta realmente muda
O experimento não prova que o tempo cotidiano é uma ilusão, nem resolve sozinho todos os desafios da cosmologia quântica. Seu peso está em outro lugar: ele oferece uma demonstração experimental de uma ideia que por muito tempo viveu apenas em modelos teóricos.
Ao mostrar que o tempo pode ser construído a partir da entropia e das interações internas de um sistema fechado, o trabalho de Giovanni Barontini, publicado na Physical Review Research em 11 de junho de 2026, cria uma ponte rara entre teoria e laboratório. Mais do que isso, sugere que o tempo talvez não precise ser “colocado” no Universo de fora para dentro. Ele pode surgir da própria dinâmica da matéria, da informação e das trocas que acontecem em seu interior.
Se essa visão estiver no caminho certo, compreender o tempo pode depender menos de procurar um relógio cósmico escondido e mais de investigar como sistemas complexos organizam suas mudanças internamente.
