Vida na altitude pode reduzir risco de diabetes, revela estudo

Baixo oxigênio altera metabolismo da glicose. (Foto: Getty Images via Canva)
Baixo oxigênio altera metabolismo da glicose. (Foto: Getty Images via Canva)

Há décadas, estudos epidemiológicos indicam que populações que vivem em grandes altitudes apresentam menor incidência de diabetes. Contudo, até recentemente, a explicação biológica para esse fenômeno permanecia indefinida. Agora, uma pesquisa revela um mecanismo surpreendente envolvendo os glóbulos vermelhos.

O estudo, publicado na revista Cell Metabolism em 19 de fevereiro de 2026, sob o título Os glóbulos vermelhos atuam como um reservatório primário de glicose para melhorar a tolerância à glicose em altitudes elevadas, liderado por Yolanda Martí-Mateos e Isha H. Jain, demonstra que a exposição a baixos níveis de oxigênio pode transformar essas células em importantes reguladoras da glicose sanguínea (DOI: 10.1016/j.cmet.2026.01.019).

Hipóxia ativa um novo eixo metabólico

Ambientes de alta altitude apresentam menor disponibilidade de oxigênio, condição conhecida como hipóxia. Em resposta, o organismo ativa mecanismos adaptativos para manter o fornecimento adequado aos tecidos.

A pesquisa mostrou que, nessas condições, os glóbulos vermelhos passam a captar maiores quantidades de glicose da corrente sanguínea. Dessa forma, funcionam como um verdadeiro reservatório metabólico.

Tradicionalmente vistos apenas como transportadores de oxigênio, essas células demonstraram papel ativo no controle glicêmico. Em modelos experimentais com camundongos expostos à hipóxia, observou-se:

• Redução acentuada da glicemia após as refeições
• Maior produção total de glóbulos vermelhos
• Aumento da captação individual de glicose por célula

Esses achados ajudam a explicar por que viver em altitude pode estar associado a melhor tolerância à glicose.

O mecanismo molecular por trás do efeito

A equipe investigou como essa mudança metabólica ocorre. Os dados indicam que, sob baixo oxigênio, os glóbulos vermelhos utilizam glicose para produzir moléculas que facilitam a liberação de oxigênio aos tecidos.

Esse ajuste metabólico é particularmente vantajoso quando o oxigênio é escasso. Ao mesmo tempo, contribui para retirar glicose da circulação, reduzindo os níveis sanguíneos.

Além disso, os efeitos benéficos persistiram por semanas após o retorno a níveis normais de oxigênio nos modelos animais. Isso sugere uma adaptação metabólica mais duradoura do que se imaginava.

Um novo caminho terapêutico

Com base nessa descoberta, os pesquisadores avaliaram um medicamento experimental chamado HypoxyStat, desenvolvido para simular os efeitos da hipóxia. O fármaco atua aumentando a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, reduzindo temporariamente sua disponibilidade nos tecidos e ativando mecanismos semelhantes aos observados em altitude.

Em modelos de diabetes em camundongos, o medicamento normalizou os níveis de glicose e apresentou desempenho superior ao de terapias convencionais testadas no estudo.

Essa estratégia representa uma abordagem inovadora. Em vez de agir diretamente sobre pâncreas, fígado ou músculos, o tratamento mobiliza os próprios glóbulos vermelhos como reguladores do metabolismo da glicose.

Implicações além do diabetes

Os resultados também podem ter impacto em outras áreas. Alterações na função dos glóbulos vermelhos podem influenciar:

• Fisiologia do exercício
• Recuperação após trauma
• Adaptação a ambientes extremos

Compreender como o organismo responde à variação de oxigênio amplia as possibilidades terapêuticas não apenas para distúrbios metabólicos, mas também para condições associadas à hipóxia patológica.

Uma nova perspectiva sobre o sangue

A descoberta redefine o papel dos glóbulos vermelhos no metabolismo humano. Longe de serem células passivas, elas podem exercer influência significativa no equilíbrio da glicose.

Embora ainda sejam necessários estudos clínicos em humanos, os achados publicados na Cell Metabolism abrem uma nova fronteira na pesquisa sobre diabetes. A altitude, antes vista apenas como fator ambiental, pode inspirar estratégias terapêuticas capazes de transformar o controle glicêmico no futuro.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn