Filhote de macaco é abandonado pela mãe e adota pelúcia: o que diz a ciência?

Apego à pelúcia revela ciência do vínculo animal (Imagem: Divulgação/ Redes sociais)
Apego à pelúcia revela ciência do vínculo animal (Imagem: Divulgação/ Redes sociais)

O caso do filhote de macaco rejeitado com bicho de pelúcia tem emocionado a internet. No entanto, por trás da comoção existe uma explicação científica sólida envolvendo comportamento animal, neurobiologia do apego e desenvolvimento emocional em primatas.

O nascimento de Punch ocorreu em julho de 2025, no Japão, no Zoológico de Ichikawa. Após o parto, sua mãe apresentou sinais de exaustão associados ao calor intenso e não estabeleceu o vínculo materno. Como resultado, o filhote precisou ser alimentado por tratadores. Faltava, porém, um elemento crucial para o desenvolvimento saudável: contato físico constante.

Para reduzir o estresse do recém-nascido, a equipe introduziu um brinquedo macio, apelidado de “Ora-mama”. A resposta comportamental foi imediata. Punch passou a agarrar o objeto continuamente, usando-o como fonte de segurança. Esse comportamento pode ser explicado por três pilares científicos:

  • Apego primário em primatas: filhotes dependem do toque para regular batimentos cardíacos, temperatura e níveis de cortisol;
  • Objetos transicionais: descritos na psicologia do desenvolvimento, funcionam como mediadores emocionais na ausência do cuidador;
  • Regulação do estresse: estímulos táteis reduzem ansiedade e favorecem estabilidade comportamental.

Conforto físico como base da sobrevivência emocional

Filhote rejeitado busca segurança após ausência materna (Imagem: Divulgação/ Redes sociais)
Filhote rejeitado busca segurança após ausência materna (Imagem: Divulgação/ Redes sociais)

Estudos clássicos conduzidos por Harry Harlow demonstraram que filhotes de macacos priorizam conforto físico em vez de alimento quando privados da mãe. Décadas depois, pesquisas em neurociência confirmaram que o toque ativa circuitos ligados à liberação de oxitocina, hormônio associado ao vínculo e à sensação de segurança.

Portanto, o apego à pelúcia não indica “humanização” do animal, mas sim uma estratégia adaptativa de sobrevivência emocional.

Quando o vínculo real começa a substituir o objeto de conforto

Após rejeição, filhote é aceito pelo grupo (Imagem: Divulgação/ Redes sociais)
Após rejeição, filhote é aceito pelo grupo (Imagem: Divulgação/ Redes sociais)

Em janeiro, Punch começou a ser integrado à chamada “Montanha dos Macacos”, grupo com cerca de 60 primatas. Inicialmente, ao enfrentar interações sociais desafiadoras, ele recorria ao brinquedo. Contudo, gradualmente, passou a explorar o ambiente e interagir com outros filhotes.

O momento decisivo ocorreu quando outro jovem iniciou comportamento de grooming, limpeza social fundamental para vínculos entre primatas. Esse gesto sinaliza que Punch começa a transferir sua segurança do objeto para relações reais.

Desse jeito, o caso reforça algo essencial: emoções, apego e necessidade de contato não são exclusividade humana. São parte de uma herança evolutiva compartilhada e profundamente biológica.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes