Estudo revela ligação entre depressão e Parkinson precoce

Sintomas depressivos podem sinalizar risco neurológico. (Foto: Pexels via Canva)
Sintomas depressivos podem sinalizar risco neurológico. (Foto: Pexels via Canva)

A depressão em adultos mais velhos pode representar mais do que um transtorno de humor isolado. Novas evidências científicas indicam que ela pode funcionar como um sinal precoce de alterações cerebrais associadas à doença de Parkinson e à demência com corpos de Lewy. A descoberta reforça a importância de atenção clínica redobrada quando sintomas depressivos aparecem nessa fase da vida.

O estudo foi publicado na revista General Psychiatry, sob o título Depression preceding and following diagnosis of Parkinson’s disease and dementia with Lewy bodies, liderado por Christopher Rohde, em 2025 (DOI: 10.1136/gpsych-2025-102405).

A depressão antes do diagnóstico neurológico

A pesquisa analisou dados de 17.711 pessoas diagnosticadas com doença de Parkinson ou demência com corpos de Lewy entre 2007 e 2019, utilizando registros nacionais de saúde da Dinamarca. Para comparação, os pesquisadores avaliaram indivíduos com outras doenças crônicas, como artrite reumatoide, osteoporose e doença renal crônica.

Os resultados mostraram um padrão consistente. A incidência de depressão aumentava gradualmente nos anos anteriores ao diagnóstico neurológico, atingindo o ponto mais alto cerca de três anos antes da confirmação da doença.

Além disso, mesmo após o diagnóstico, os pacientes continuaram apresentando taxas elevadas de depressão em comparação aos grupos com outras doenças crônicas.

Esse achado é relevante porque indica que a depressão pode não ser apenas uma reação emocional ao adoecimento, mas possivelmente parte do próprio processo neurodegenerativo.

Indício de alterações cerebrais precoces

Diferentemente de outras doenças crônicas incapacitantes, Parkinson e demência com corpos de Lewy apresentaram um aumento mais acentuado nos casos de depressão. Isso sugere que mudanças na química cerebral e nos circuitos neuronais podem começar anos antes dos sintomas motores ou cognitivos clássicos.

No caso da demência com corpos de Lewy, o padrão foi ainda mais marcante. Os índices de depressão foram superiores tanto antes quanto depois do diagnóstico, indicando possível relação com alterações específicas em neurotransmissores e redes cerebrais.

Portanto, a depressão pode refletir modificações neurobiológicas iniciais, especialmente em áreas do cérebro relacionadas ao humor, motivação e regulação emocional.

O que isso significa na prática?

É importante esclarecer que nem toda pessoa com depressão desenvolverá Parkinson ou demência. A depressão é uma condição multifatorial e extremamente comum.

No entanto, quando sintomas depressivos surgem pela primeira vez em adultos mais velhos, especialmente sem histórico anterior, pode ser prudente considerar:

  • Avaliação neurológica detalhada
  • Acompanhamento clínico regular
  • Monitoramento de sintomas motores ou cognitivos
  • Rastreamento sistemático de alterações de humor

Mesmo na ausência de cura para essas doenças neurodegenerativas, o tratamento precoce da depressão melhora a qualidade de vida, reduz sofrimento e favorece um cuidado mais abrangente ao longo da evolução clínica.

Um novo olhar sobre saúde mental e neurodegeneração

Os achados reforçam a conexão entre saúde mental e saúde neurológica. Em vez de tratar a depressão apenas como um transtorno isolado, a ciência começa a enxergá-la, em alguns casos, como possível marcador de processos cerebrais mais amplos.

Assim, reconhecer e tratar sintomas depressivos precocemente pode representar uma oportunidade valiosa de intervenção, vigilância e suporte clínico.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn