A revolução dos medicamentos injetáveis para emagrecimento mudou rapidamente o tratamento da obesidade. Fármacos como Ozempic e Wegovy promovem perda de peso significativa ao reduzir o apetite de forma intensa. No entanto, novas evidências científicas indicam que essa supressão alimentar pode vir acompanhada de um risco silencioso: deficiências nutricionais e perda de massa muscular quando não há acompanhamento adequado.
A eficácia que reduz a fome também reduz nutrientes
Os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, atuam imitando hormônios intestinais responsáveis pela saciedade. Como resultado, a ingestão calórica pode cair entre 16% e 39%, favorecendo o emagrecimento rápido. Ainda assim, essa redução abrupta na alimentação levanta preocupações importantes sobre a qualidade da dieta ao longo do tratamento.
Uma revisão sistemática publicada em fevereiro de 2026 na revista Obesity Reviews, intitulada “Estratégias nutricionais para terapias incretínicas de próxima geração”, liderada por Marie Spreckley e colaboradores, analisou as evidências disponíveis sobre nutrição durante o uso desses medicamentos (Obesity Reviews, 2026, DOI: 10.1111/obr.70079). O estudo revelou escassez de dados robustos sobre ingestão adequada de proteínas, vitaminas e minerais nesse contexto.
Redução de peso pode envolver mais do que gordura corporal
Um dos achados mais relevantes da revisão é que até 40% do peso perdido pode corresponder à massa magra, incluindo músculos. Isso ocorre porque, com o apetite drasticamente reduzido, muitos usuários não consomem proteína suficiente para preservar o tecido muscular.
A perda de massa muscular vai além da estética. Ela está associada a:
- Fraqueza física
- Maior risco de quedas
- Redução do metabolismo basal
- Dificuldade em manter o peso a longo prazo
Além disso, a ingestão insuficiente de micronutrientes pode favorecer fadiga, queda de cabelo, enfraquecimento imunológico e alterações ósseas.
Uso crescente sem suporte proporcional
Embora existam diretrizes clínicas que recomendem o uso desses medicamentos dentro de programas estruturados de perda de peso, a realidade mostra outro cenário. A maioria dos usuários acessa essas terapias fora de sistemas públicos de saúde, frequentemente sem orientação nutricional contínua.
A revisão identificou apenas 12 estudos que avaliaram nutrição associada ao uso de semaglutida ou tirzepatida. Mesmo esses trabalhos apresentaram métodos heterogêneos e pouca padronização, dificultando recomendações claras baseadas em evidência.
O que a ciência já indica como caminho seguro
Apesar das lacunas, os pesquisadores apontam estratégias promissoras inspiradas no cuidado nutricional pós-cirurgia bariátrica. Entre os princípios mais relevantes estão:
- Priorizar alimentos densos em nutrientes
- Manter uma ingestão proteica adequada distribuída nas refeições
- Evitar dietas excessivamente restritivas
- Adaptar o padrão alimentar para reduzir efeitos colaterais gastrointestinais
Essas abordagens podem ajudar a preservar a saúde metabólica durante a perda de peso acelerada.
Uma oportunidade para tratar obesidade com mais precisão
Os medicamentos baseados em GLP-1 representam um avanço inegável no tratamento da obesidade. Contudo, a ciência deixa claro que emagrecer com saúde exige mais do que reduzir o apetite. Integrar o tratamento farmacológico a uma estratégia nutricional estruturada pode ser decisivo para evitar que um problema de saúde seja substituído por outro.

