Curiosity detecta matéria orgânica que pode indicar vida antiga em Marte

Moléculas em Marte desafiam explicações geológicas tradicionais (Imagem: Getty Images via Canva)
Moléculas em Marte desafiam explicações geológicas tradicionais (Imagem: Getty Images via Canva)

Durante décadas, Marte foi considerado um planeta quimicamente simples e biologicamente improvável. No entanto, dados recentes do rover Curiosity vêm transformando essa visão. Uma nova pesquisa publicada na revista Astrobiology indica que parte da matéria orgânica presente no solo marciano não pode ser plenamente explicada por processos físicos e químicos conhecidos, o que reforça a hipótese de uma origem biológica no passado distante do planeta.

A análise revelou a presença de decano, undecano e dodecano, moléculas orgânicas relativamente grandes e estáveis. Na Terra, compostos desse tipo estão frequentemente ligados a ácidos graxos produzidos por organismos vivos, embora também possam surgir por reações geológicas. O fator decisivo neste caso foi a quantidade encontrada, considerada elevada para um ambiente que teria recebido apenas material orgânico via meteoritos. Entre os principais pontos do estudo, destacam-se:

  • Identificação dos maiores compostos orgânicos já medidos em Marte;
  • Preservação das moléculas em rochas sedimentares ricas em argila;
  • Dificuldade de explicar a abundância apenas por fontes não biológicas;
  • Indicação de que o conteúdo original era bem mais alto no passado.

Modelos químicos revelam um cenário inesperado

Para interpretar os dados, os pesquisadores combinaram experimentos de laboratório com simulações matemáticas, considerando os efeitos da radiação cósmica ao longo de cerca de 80 milhões de anos. Esse processo permitiu estimar quanto material orgânico teria existido antes de sofrer degradação progressiva na superfície marciana.

Os resultados mostraram que a concentração inicial das moléculas era muito superior àquela que seria gerada por impactos de meteoritos ou processos geoquímicos simples, sugerindo a participação de mecanismos mais complexos, possivelmente relacionados à atividade biológica.

O que muda na busca por vida em Marte?

Essa descoberta representa um avanço significativo para a astrobiologia, pois indica que Marte pode ter reunido condições químicas compatíveis com processos biológicos reais. A presença de argilas também reforça evidências de ambientes aquáticos antigos, onde água líquida persistiu por longos períodos, um requisito essencial para a vida.

Além disso, moléculas orgânicas preservadas por tanto tempo sugerem que o planeta teve estabilidade ambiental suficiente para manter registros químicos do seu passado.

Limites da descoberta e próximos desafios

Apesar do impacto científico, os dados ainda não permitem afirmar que houve vida em Marte. O que o estudo demonstra é que as explicações exclusivamente geológicas são insuficientes para explicar todos os resultados observados.

Os próximos passos envolvem compreender melhor a taxa de degradação das moléculas orgânicas em ambientes marcianos e, sobretudo, analisar amostras diretamente em laboratórios terrestres, com técnicas mais sensíveis.

Desse jeito, a pesquisa não prova a existência de vida, mas fortalece um ponto crucial: Marte pode ter sido biologicamente viável, e seus vestígios químicos ainda estão parcialmente preservados, aguardando instrumentos mais avançados para revelar sua verdadeira origem.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua na educação científica e como divulgador, com o compromisso de traduzir descobertas complexas, das microbactérias aos grandes ecossistemas, em conhecimento acessível para todos.Ver perfil no LinkedIn