Dor abdominal persistente, inchaço fora do comum, sensação constante de estufamento. Esses sintomas, muitas vezes atribuídos a problemas digestivos ou alterações hormonais, estão entre os sinais mais comuns relatados por mulheres que mais tarde recebem um diagnóstico de câncer de ovário. O problema é que, quando esses alertas passam a chamar atenção médica, a doença frequentemente já se espalhou pelo abdômen.
Esse comportamento ajuda a entender por que o câncer de ovário lidera as taxas de mortalidade entre os tumores ginecológicos. Durante anos, a ciência soube que ele se dissemina rápido, mas não compreendia exatamente como isso acontece dentro do corpo.
Um tipo de espalhamento fora do padrão
Ao contrário de outros cânceres, o de ovário raramente utiliza a corrente sanguínea para formar metástases. Em vez disso, células tumorais se desprendem do tumor principal e passam a circular pelo fluido abdominal, um líquido que se movimenta constantemente com a respiração e os movimentos do corpo.
Esse ambiente permite que as células alcancem diferentes regiões do abdômen com facilidade. Ainda assim, isso não explicava por que elas conseguem se fixar, invadir tecidos e resistir ao tratamento com tanta eficiência.
Como células saudáveis acabam facilitando a invasão

Emerge então um fator decisivo. Durante essa fase de circulação, as células cancerígenas não viajam sozinhas. Elas se associam a células mesoteliais, que normalmente têm a função de proteger e revestir os órgãos abdominais.
Sob influência de sinais químicos liberados pelo próprio tumor, essas células protetoras sofrem alterações e passam a atuar como facilitadoras da invasão. Juntas, formam aglomerados híbridos, estruturas compactas compostas por células cancerígenas e mesoteliais.
Esses agrupamentos são mais eficientes do que células isoladas, pois combinam mobilidade, capacidade de invasão e proteção contra medicamentos.
Espinhos microscópicos que abrem caminho
As células mesoteliais recrutadas desenvolvem invadopódios, projeções pontiagudas capazes de perfurar o tecido ao redor. Na prática, elas funcionam como uma ferramenta de escavação, abrindo espaço para que as células cancerígenas avancem.
Esse mecanismo resulta em três efeitos críticos:
- invasão mais rápida de novos órgãos
- maior dificuldade de ação da quimioterapia
- progressão silenciosa da doença
O que essa descoberta muda na prática
A compreensão desse processo ajuda a explicar por que o câncer de ovário costuma ser diagnosticado em estágios avançados e por que o tratamento nem sempre tem o efeito esperado. Ao focar apenas nas células tumorais, terapias atuais deixam de atingir peças-chave do processo de disseminação.
Os achados indicam que bloquear a comunicação entre células cancerígenas e mesoteliais pode representar um novo caminho terapêutico. Além disso, observar esses aglomerados no fluido abdominal pode se tornar uma estratégia futura para acompanhar a evolução da doença.
Validação científica
As informações apresentadas são baseadas no estudo publicado na revista Science Advances, intitulado “As células mesoteliais promovem a invasão peritoneal e a metástase de células cancerígenas do ovário derivadas da ascite através da formação de esferóides”, de autoria principal de Kaname Uno, publicado em 9 de fevereiro de 2026 (DOI: 10.1126/sciadv.adu5944).

