Novo estudo explica por que a psoríase pode afetar articulações anos depois

Psoríase pode avançar da pele para as articulações. (Foto: Getty Images via Canva)
Psoríase pode avançar da pele para as articulações. (Foto: Getty Images via Canva)

A psoríase é amplamente reconhecida como uma doença inflamatória da pele, mas, em uma parcela significativa dos pacientes, ela pode evoluir para um quadro muito mais complexo e incapacitante: a artrite psoriásica. Essa progressão nem sempre é previsível e, por muitos anos, permaneceu um dos maiores enigmas da reumatologia. Agora, novas evidências ajudam a explicar por que essa transição ocorre apenas em alguns indivíduos.

Um estudo publicado na revista Nature Immunology, intitulado “Precursores mieloides derivados da pele e fibroblastos residentes nas articulações disseminam a doença psoriásica da pele para as articulações”, liderado por Maria G. Raimondo, em janeiro de 2026 (DOI: 10.1038/s41590-025-02351-z), identificou o mecanismo celular que conecta a inflamação cutânea ao comprometimento articular.

A rota invisível das células imunológicas

Durante os surtos de psoríase, a inflamação da pele estimula a formação de células imunológicas precursoras altamente ativadas. Essas células, em vez de permanecerem restritas à pele, conseguem acessar a corrente sanguínea e circular pelo organismo.

O estudo demonstrou que essas células podem alcançar as articulações, estabelecendo uma ponte biológica entre a doença cutânea e a inflamação articular. No entanto, a simples chegada dessas células não é suficiente para causar artrite, o que ajuda a explicar por que nem todos os pacientes com psoríase desenvolvem a forma articular da doença.

O papel decisivo do ambiente articular

O fator determinante está no comportamento dos fibroblastos articulares, células do tecido conjuntivo responsáveis por manter a integridade das articulações. Em indivíduos saudáveis ou em pacientes com psoríase sem artrite, esses fibroblastos exercem uma função reguladora, impedindo que células inflamatórias desencadeiem danos.

Já nos pacientes que evoluem para artrite psoriásica, essa função protetora se encontra comprometida. Como resultado, as células imunológicas provenientes da pele conseguem se estabelecer na articulação e iniciar um processo inflamatório persistente, levando à dor, rigidez e, em estágios avançados, à destruição óssea.

Sinais precoces que podem mudar o diagnóstico

Um dos achados mais relevantes do estudo foi a identificação dessas células imunológicas migratórias no sangue antes do aparecimento dos sintomas articulares. Esse detalhe abre caminho para estratégias de diagnóstico precoce, permitindo reconhecer pacientes com maior risco de evolução articular ainda na fase cutânea da doença.

Esse avanço pode transformar o manejo clínico da psoríase, deslocando o foco do tratamento reativo para uma abordagem preventiva e personalizada.

Novos caminhos para prevenção e tratamento

Compreender como a psoríase se dissemina da pele para as articulações cria oportunidades para intervenções inovadoras, como terapias capazes de bloquear a migração dessas células ou restaurar a função protetora dos fibroblastos articulares.

Essas estratégias têm potencial para prevenir danos articulares permanentes, reduzindo a incapacidade funcional e melhorando significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

Os resultados reforçam a visão da psoríase como uma doença sistêmica, e não apenas dermatológica. Reconhecer essa complexidade é essencial para um acompanhamento mais atento, capaz de identificar riscos ocultos e agir antes que a inflamação articular se torne irreversível.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) e une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica. Com rigor técnico e olhar atento, dedica-se a traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano, combatendo a desinformação com embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn