A doença renal crônica costuma avançar de forma silenciosa, sem sintomas evidentes nas fases iniciais. Justamente por isso, o diagnóstico tardio ainda é frequente.
No entanto, novas evidências científicas indicam que o problema pode começar muito antes do que se imaginava, mesmo quando os exames tradicionais apontam resultados considerados normais.
Um estudo recente publicado na revista Kidney International, intitulado “Distribuições populacionais estimadas da taxa de filtração glomerular e desfechos de saúde associados oferecem oportunidades para a identificação precoce e a prevenção primária da doença renal crônica”, liderado por Yuanhang Yang, em fevereiro de 2026 (DOI: 10.1016/j.kint.2025.11.009), propõe uma mudança importante na forma de interpretar a função renal.
O problema dos valores de referência fixos
Atualmente, a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) é avaliada com base em pontos de corte fixos. Valores acima de 60 ml/min/1,73 m² costumam ser classificados como normais. Contudo, essa abordagem ignora um fator crucial: a idade e o sexo do paciente.
O novo estudo demonstrou que pessoas com TFGe significativamente mais baixa do que o esperado para sua faixa etária apresentam maior risco de evolução para insuficiência renal, mesmo sem alterações aparentes nos exames convencionais.
Percentis revelam riscos ocultos
Ao analisar dados de mais de 1,1 milhão de adultos, os pesquisadores criaram distribuições populacionais da TFGe, semelhantes às curvas de crescimento usadas na pediatria. Esse método permite posicionar cada paciente em um percentil renal, comparando sua função com a de indivíduos da mesma idade e sexo.
Os resultados mostraram que indivíduos abaixo do 25º percentil apresentaram:
- Maior risco de progressão para insuficiência renal terminal
- Aumento da necessidade futura de diálise ou transplante
- Elevação da mortalidade, especialmente nos extremos dos percentis
Esses achados indicam que pequenas reduções relativas na função renal não devem ser ignoradas.
Oportunidades perdidas no cuidado clínico
Outro dado relevante foi a baixa solicitação de exames complementares. Entre pacientes com TFGe considerada normal, mas abaixo do percentil esperado, apenas uma minoria realizou avaliação de albumina urinária, exame essencial para identificar lesão renal precoce.
Essa lacuna representa uma oportunidade perdida de prevenção, já que intervenções simples, como controle rigoroso da pressão arterial, ajuste medicamentoso e acompanhamento mais frequente, podem retardar significativamente a progressão da doença.
Uma nova ferramenta para antecipar diagnósticos
Como desdobramento prático, o estudo resultou na criação de uma calculadora online de TFGe baseada em percentis, voltada ao uso clínico. A ferramenta permite identificar pacientes em risco silencioso e apoiar decisões médicas mais precoces.
Essa abordagem reforça o conceito de medicina personalizada, na qual o risco é avaliado de forma individualizada, e não apenas com base em valores absolutos.
O que muda a partir de agora
A principal mensagem do estudo é: exames renais normais nem sempre significam rins saudáveis. Interpretar a TFGe dentro do contexto etário pode transformar o cuidado renal, antecipando diagnósticos e reduzindo a progressão de uma doença que hoje figura entre as principais causas de perda de qualidade de vida no mundo.

